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Manual de rastreamento de álcool, nicotina e jogos deapostas na Atenção Primária à Saúde

1 de out.
9 min de leitura

Fluxos de identificação, avaliação inicial, intervenção breve e continuidade do cuidado |

Versão de trabalho, setembro de 2026


Público: equipes de Saúde da Família, equipes de Atenção Primária, eMulti e gestão local. Aplicação: pessoas atendidas no SUS, com adaptação por faixa etária, condição clínica e fluxos pactuados no território. Este manual é um apoio operacional; o diagnóstico e o tratamento exigem avaliação clínica e observância dos protocolos vigentes.


Como usar este manual


Na consulta, pergunte em ambiente reservado, registre a resposta, avalie risco imediato, utilize o instrumento apropriado quando indicado, ofereça intervenção proporcional e combine retorno. O resultado de um teste de rastreamento nunca substitui a avaliação clínica. A APS mantém o vínculo também quando a pessoa recebe cuidado no Caps, em outro serviço da RAPS ou na urgência. A Carteira de Serviços da APS prevê identificação e

aconselhamento para álcool e tabagismo; o Guia de jogos de apostas de 2026 detalha o papel da APS para o terceiro tema. [1–3].


1 Fundamentos e organização


Acolhimento sem julgamento, privacidade, consentimento, abordagem centrada na pessoa, cuidado longitudinal, redução de danos e ação intersetorial orientam todo o processo. A pergunta sobre apostas não deve confundir apostas com videogames sem risco financeiro. Nenhum escore, isoladamente, autoriza rotular a pessoa como dependente. Os Cadernos 29, 34, 35 e 40 fundamentam rastreamento, saúde mental, prevenção de doenças crônicas e cuidado da pessoa tabagista; as linhas e protocolos mais recentes atualizam as condutas. [2–9].


Etapa

Ação em qualquer tema

1 Acolher

Explicar por que se pergunta; assegurar conversa privada e linguagem não moralizante.

2 Perguntar

Registrar uso ou aposta atual, histórico, frequência, consequências e interesse em mudar.

3 Avaliar

Identificar sinais de crise, comorbidades, prejuízos e contexto familiar/social; escolher o instrumento

adequado.

4 Agir

Devolver resultados, combinar uma meta realista, intervenção breve ou cuidado compartilhado.

5 Acompanhar

Marcar retorno, documentar o plano e conferir se o encaminhamento resultou em acesso.


Periodicidade: incorporar álcool e tabaco às avaliações de rotina, especialmente na primeira consulta e nas mudanças de condição clínica; a linha ministerial de álcool recomenda reavaliar em todas as consultas. Para apostas, priorizar perguntas oportunísticas diante de sinais, demanda espontânea ou contextos de vulnerabilidade. Não há intervalo universal validado para reaplicação dos três instrumentos; pactue

reavaliação segundo risco e evolução. [3,8,9].


2 Roteiro inicial em 2 a 4 minutos


Sugestão de abertura: “Faço estas perguntas a todas as pessoas quando são relevantes para a saúde. Podemos conversar sobre álcool, produtos com nicotina e apostas? Sua resposta ajuda a pensar no cuidado.” Pergunte sem acompanhantes quando houver privacidade e possibilidade de coação. [3,8,9].


• Álcool: “Você consumiu bebida alcoólica nos últimos 12 meses? Com que frequência e quantidade? Houve episódios de cinco ou mais doses numa ocasião?”

• Nicotina: “Usa cigarro, tabaco ou algum produto com nicotina, inclusive vape? Usa atualmente, já usou ou nunca usou?”

• Apostas: “Você apostou dinheiro ou bens nos últimos 12 meses, presencialmente ou por aplicativo? Perdeu dinheiro que precisava, tentou recuperar perdas ou sentiu dificuldade em parar?”


Se houver resposta afirmativa, perguntar como o comportamento afeta sono, saúde, trabalho, relações e finanças; avaliar concomitância de álcool, nicotina e apostas. Em qualquer etapa, investigar ideação suicida diante de sofrimento grave, perdas financeiras relevantes ou desespero. [3,9].


3 Álcool


3.1 Quem avaliar e qual instrumento


A linha de cuidado do Ministério da Saúde recomenda avaliar o consumo em todos os pacientes desde a adolescência e registrar em prontuário. Na avaliação inicial, propõe as três primeiras perguntas do AUDIT (AUDIT-C); segundo a linha, resultado superior a 3 em mulheres ou superior a 4 em homens exige ampliação da avaliação.


Essas faixas não substituem julgamento clínico e requerem cuidado com populações não

contempladas pela classificação binária. Se houver danos, suspeita de dependência ou risco clínico, ampliar a avaliação mesmo com escore menor. O AUDIT completo tem 10 itens e explora os últimos 12 meses. [8].


AUDIT completo Leitura e ação inicial na APS

  • 0–7 : Baixo risco pelo instrumento; orientar, verificar situações em que se recomenda não beber e reavaliar.

  • 8–15 : Consumo de risco; intervenção breve, entrevista motivacional e retorno idealmente em cerca de 1 mês.

  • 16–19 : Avaliação clínica de possível transtorno, intervenção e seguimento próximo; discutir cuidado compartilhado.

  • 20–40 : Avaliação clínica abrangente, plano terapêutico e articulação com Caps AD/RAPS segundo gravidade.


Fonte dos pontos de corte: Linha de cuidado para transtornos por uso de álcool no adulto. AUDIT é rastreador, não critério diagnóstico; a graduação clínica do transtorno deve ser realizada em avaliação específica. CAGE detecta sobretudo problemas mais estabelecidos, sendo menos útil para antecipar consumo de risco. Consultar o formulário integral na linha oficial, sem alterar perguntas ou pontuações. [8]


3.2 Conduta após resultado positivo


Devolver com permissão: “Seu resultado sugere que a bebida pode estar trazendo riscos. O que você percebe?”. Relacionar o consumo com a preocupação da pessoa, propor redução ou abstinência conforme quadro, discutir contexto e combinar uma ação concreta. Investigar tentativas anteriores, comorbidades, medicamentos, gestação, violência, direção e segurança.


Para suspeita de dependência, uso matinal, abstinência prévia, convulsões ou delirium, não orientar suspensão abrupta sem avaliação de risco e plano clínico. A linha de cuidado distingue casos não complicados, acompanháveis na APS, dos moderados ou graves que exigem articulação com a RAPS. [8].


4 Nicotina e tabaco


4.1 Identificação e avaliação


Perguntar e registrar em todas as oportunidades pertinentes o uso atual e passado de cigarro e outros produtos de tabaco/nicotina, exposição domiciliar, idade de início, padrão de uso e tentativas prévias.


Perguntar especificamente sobre dispositivos eletrônicos. A resposta “uso de vape” merece avaliação clínica, mas a pontuação do teste de Fagerström, construída para cigarros convencionais, não deve ser transferida automaticamente para uso exclusivo de vape. O diagnóstico de dependência é clínico. [7,9].


Para quem fuma cigarros, o teste de Fagerström (seis itens; 0–10) auxilia a estimar intensidade da dependência: 0–2 muito baixa; 3–4 baixa; 5 média; 6–7 elevada; 8–10 muito elevada. Inclua tempo até o primeiro cigarro, número de cigarros/dia e dificuldade de evitar o uso. Pontuação elevada ajuda a prever abstinência mais intensa, mas não determina isoladamente tratamento. Aplicar a versão integral do PCDT ou do INCA. [7,10]


4.2 Abordagem e tratamento


O PCDT orienta PAAPA: perguntar e avaliar, aconselhar, preparar e acompanhar. Oferecer aconselhamento breve inclusive quando a pessoa não queira parar naquele dia; negociar retorno sem coerção. A quem deseja parar, oferecer apoio comportamental individual ou em grupo e avaliar necessidade, disponibilidade e contraindicações de medicamentos conforme PCDT e prescrição por profissional habilitado. Registrar data combinada, sintomas de abstinência, dificuldades e recaídas sem punição. Gestantes e adolescentes precisam de avaliação adaptada. [7].


5 Jogos de apostas


5.1 Quando perguntar e como aprofundar


Perguntar de modo oportunístico diante de endividamento, conflitos, piora do sono, ansiedade, isolamento, queda no trabalho/estudo ou relato de familiares, e quando a pessoa solicitar ajuda. Definir apostas como exposição de dinheiro ou bens a resultado incerto; não equiparar o comportamento ao uso de videogame sem aposta. Caracterizar modalidade, tempo, valores, tentativas de recuperar perdas, acesso a crédito, impacto

sobre necessidades básicas, violência, álcool/outras drogas e pensamentos de autolesão. O guia de 2026 recomenda acolhimento imediato na APS e continuidade territorial. [3].


Instrumentos do guia: Autoteste de Jogo (quatro respostas sim/não relativas às últimas quatro semanas) e PGSI (nove itens sobre os últimos 12 meses; escore 0–27). O Autoteste auxilia a abrir o diálogo: 0 sem sinais no instrumento, 1 indício inicial, 2 ou mais requer acolhimento e avaliação ampliada; 3–4 sinalizam maior necessidade de acompanhamento, com triagem imediata de crise quando houver sofrimento intenso. PGSI: 0 sem risco; 1–2 baixo; 3–7 moderado; 8 ou mais problema importante. Aplicar versões integrais dos anexos B e C do guia; a pontuação não estabelece diagnóstico nem deve determinar encaminhamento automático. [3].


Avaliar risco e construir plano com a pessoa: reduzir oportunidades de aposta, identificar gatilhos e perdas, organizar proteção financeira com consentimento, fortalecer apoio familiar e negociar acesso à assistência social quando necessário. Oferecer intervenção breve e seguimento na UBS; discutir com eMulti ou Caps situações persistentes, prejuízo grave ou comorbidades. O guia preserva a APS como referência durante cuidado compartilhado. [3].


6 Classificação clínica e resposta proporcional


Situação

Resposta da equipe

Sem problema identificado

Orientação breve e registro; oferecer nova conversa se surgirem consequências.

Risco inicial ou moderado

Devolutiva, entrevista motivacional, meta pactuada e retorno; ampliar avaliação se

houver danos.

Prejuízo importante ou suspeita de

transtorno

Avaliação clínica/psicossocial abrangente, plano de cuidado, APS com eMulti e Caps quando indicado.

Risco agudo

Atendimento imediato, avaliação clínica e proteção; acionar SAMU 192/UPA ou serviço de urgência conforme necessidade.

Sinais de urgência: intoxicação com alteração da consciência, abstinência alcoólica complicada ou risco de convulsão, tentativa ou risco iminente de suicídio, agitação grave, violência ou desorganização clínica importante. Não deixar a pessoa com risco iminente sozinha enquanto se organiza a resposta assistencial. Após atendimento agudo, assegurar contrarreferência e retomada na APS. [3,8].


7 Entrevista breve e continuidade


Intervenção breve sugerida: pedir permissão para conversar; devolver achados de forma objetiva; perguntar o que a pessoa pensa; explorar razões pessoais para mudar e dificuldades; negociar uma meta específica; registrar e revisar. Exemplos de metas: evitar consumo de álcool em ocasiões de risco, iniciar plano de cessação do tabaco, interromper apostas por período acordado e criar barreiras práticas à plataforma.

Objetivos e estratégias variam conforme condição clínica, motivação e preferência; não prometer que intervenção breve isolada trate transtornos graves. [3,7,8].


A continuidade deve ter profissional ou equipe de referência, contato com eMulti e Caps quando necessários, retorno agendado e comunicação entre pontos da rede. O CRAS e serviços de proteção podem apoiar situações de insegurança alimentar, endividamento, violência e perda de moradia, respeitando sigilo e consentimento. O guia de apostas recomenda também acolher familiares. [3].


8 Registro, implementação e avaliação local


Registrar no e-SUS APS: data; perguntas e período investigado; instrumento/versão e escore quando usado; relato sobre prejuízos; avaliação de risco; orientação; meta; plano; encaminhamento e retorno. Identificar rastreamento positivo sem inferir diagnóstico. Para apostas, o guia de 2026 orienta códigos da CID-10 vigentes no registro no SUS segundo avaliação profissional e informa que a CID-11 ainda está em implementação; verificar parametrização local antes de codificar. [3].


Indicador mensal sugerido

Numerador / denominador

Cobertura de perguntas

Pessoas elegíveis com pergunta registrada / pessoas atendidas no período.

Avaliação após indício

Pessoas com indício que receberam avaliação ampliada / pessoas com indício.

Plano registrado

Pessoas com risco identificado e plano pactuado / pessoas com risco identificado.

Continuidade

Pessoas encaminhadas com contato ou retorno confirmado / pessoas encaminhadas.


Implantação: mapear o fluxo municipal antes de iniciar; capacitar recepção clínica e profissionais assistenciais para perguntas não estigmatizantes; definir responsabilidades, privacidade e documentação; pactuar com Caps/eMulti e urgência; revisar dados por equipe sem meta punitiva de “positivos”. A escolha de ampliar o rastreamento de apostas para toda a população requer avaliação local de capacidade, aceitabilidade e

benefício, pois o guia nacional enfatiza identificação contextual e avaliação psicossocial. [3] A pactuação deve considerar a Política Nacional de Atenção Básica, a organização da RAPS e o Programa Nacional de Controle do Tabagismo. [11–13].


9 Consulta rápida por situações específicas


• Gestação: perguntar sobre álcool e nicotina em privacidade; orientar abstinência alcoólica e cessação de tabaco, avaliar suporte e seguir protocolos pré-natais e PCDT. Evitar interpretação de baixo risco por escore baixo quando há exposição relevante.

• Adolescências: abordagem confidencial conforme proteção integral e fluxos locais; envolver responsáveis quando indicado e seguro. Não aplicar automaticamente pontos de corte de instrumentos adultos para apostar ou usar nicotina.

• Comorbidades e múltiplos comportamentos: investigar depressão, ansiedade, uso de outras substâncias e riscos sociais; organizar prioridades com a pessoa, sem fragmentar o acompanhamento.

• Recusa em responder ou mudar: registrar sem coerção, oferecer informação e porta aberta; retornar ao assunto em momento oportuno.


10 Referências essenciais


1. Brasil. Ministério da Saúde. Carteira de Serviços da Atenção Primária à Saúde (CaSAPS): versão profissionais de saúde e gestores [Internet].

Brasília: Ministério da Saúde; [citado 2026 set 23]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/composicao/saps/publicacoes/cartazes-ecartilhas/

casaps_versao_profissionais_saude_gestores_completa.pdf

2. Brasil. Ministério da Saúde. Rastreamento. Cadernos de Atenção Primária, n. 29 [Internet]. 1. ed., 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde; 2013

3. Brasil. Ministério da Saúde. Guia de cuidado para pessoas com problemas relacionados a jogos de apostas: orientações práticas para o

acolhimento, acompanhamento e cuidado [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2026 [citado 2026 set 23]. Disponível em:

a-jogos-de-apostas.pdf

4. Brasil. Ministério da Saúde. Saúde mental. Cadernos de Atenção Básica, n. 34 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2013 [citado 2026 set

5. Brasil. Ministério da Saúde. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica. Cadernos de Atenção Básica, n. 35 [Internet]. Brasília:

Ministério da Saúde; 2014 [citado 2026 set 23]. Disponível em:

6. Brasil. Ministério da Saúde. Estratégias para o cuidado da pessoa com doença crônica: o cuidado da pessoa tabagista. Cadernos de Atenção

Básica, n. 40 [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2015 [citado 2026 set 23]. Disponível em:

7. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria Conjunta n. 10, de 16 de abril de 2020: aprova o Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas do Tabagismo

[Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2020 [citado 2026 set 23]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/ptbr/

assuntos/pcdt/t/tabagismo/@@download/file

8. Brasil. Ministério da Saúde. Transtornos por uso de álcool no adulto: planejamento terapêutico na unidade de atenção primária [Internet].

Brasília: Ministério da Saúde; [citado 2026 set 23]. Disponível em: https://linhasdecuidado.saude.gov.br/portal/transtornos-por-uso-de-alcoolno-

adulto/unidade-de-atencao-primaria/planejamento-terapeutico/

9. Brasil. Ministério da Saúde. Rede de Atenção Psicossocial [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; [citado 2026 set 23]. Disponível em:

10. Instituto Nacional de Câncer. Teste de Fagerström [Internet]. Rio de Janeiro: INCA; 2022 [citado 2026 set 23]. Disponível em:

11. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria n. 2.436, de 21 de setembro de 2017: aprova a Política Nacional de Atenção Básica [Internet]. Brasília:

Ministério da Saúde; 2017 [citado 2026 set 23]. Disponível em:

12. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria n. 3.088, de 23 de dezembro de 2011: institui a Rede de Atenção Psicossocial [Internet]. Brasília:

Ministério da Saúde; 2011 [citado 2026 set 23]. Disponível em:

13. Instituto Nacional de Câncer. Programa Nacional de Controle do Tabagismo [Internet]. Rio de Janeiro: INCA; [citado 2026 set 23]. Disponível


Alessandra Mendes Calixto — Enfermeira; doutora em Enfermagem; mestre em Ensino na Saúde; especialista em gestão em saúde,

saúde mental, dependência química e orientação familiar; presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas

(ABEAD), gestão 2025–2027. ORCID: 0000-0001-7620-178X.

 
 
 

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