APOSTAS, TRABALHO E SAÚDE: RECONHECER SINAIS, PREVENIR DANOS, BUSCAR CUIDADO
As apostas estão cada vez mais presentes no cotidiano. No celular, nas redes sociais, nos sites, na mídia e nos aplicativos, apostar pode parecer uma forma simples de entretenimento ou uma maneira de tentar ganhar algum dinheiro. As apostas esportivas, em particular, passaram a fazer parte da conversa sobre futebol e outros esportes.
Mas existe uma diferença entre apostar ocasionalmente e desenvolver uma relação problemática com as apostas. Quando o comportamento começa a ocupar muito tempo e atenção, comprometer o dinheiro destinado às despesas, interferir no trabalho, na saúde psíquica ou nos relacionamentos sociais, ou quando a pessoa tenta parar e não consegue, é hora de olhar para a situação com cuidado.
A ludopatia — também chamada de transtorno do jogo — é uma condição de saúde mental reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com base neurobiológica e forte relação com desigualdade social, gênero e raça. Reunimos aqui um panorama científico e objetivo para apoiar lideranças e equipes.
A OMS inclui o transtorno do jogo na CID-11, na categoria de Transtornos Devidos a Comportamentos Aditivos. Esse foi também o primeiro comportamento não relacionado a substâncias reconhecido como transtorno aditivo pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Criado pela Associação Americana de Psiquiatria, esse manual serve como o guia oficial para médicos, psicólogos e profissionais que trabalham com saúde mental. Isso aproxima, clinicamente, o jogo patológico das dependências químicas, pois ele altera circuitos cerebrais de motivação, impulsividade e recompensa, e não é raro que funcione como forma de regular emoções ou fugir de situações difíceis.
Um detalhe importante nessa conversa: plataformas de apostas usam
engenharia comportamental — notificações, recompensas variáveis,
gamificação — desenhada para maximizar engajamento. O problema não
nasce só de uma escolha individual; ele é, em parte, construído pelo
ambiente ao redor da pessoa.
OS NÚMEROS NO BRASIL
+1,4 milhões
de brasileiros apresentam padrão de apostas
compatível com transtorno do jogo patológico,
segundo o III LENAD.
10,9 milhões
De brasileiros com 14 anos ou mais
apresentaram algum grau de risco ou
comportamento problemático relacionado ao
jogo.
52%
dos apostadores ouvidos pelo DataSenado
ganham até 2 salários mínimos por mês.
104%
Foi o aumento dos atendimentos relacionados
a jogo patológico e mania de jogo e aposta
registrados no SUS entre 2018 e 2025.
APOSTAR TAMBÉM É UMA QUESTÃO DE SAÚDE E DE DESIGUALDADE
Nem todas as pessoas estão expostas às apostas da mesma maneira e nem
todas enfrentam as mesmas consequências quando surgem problemas. Condições de
renda, trabalho, moradia, educação, acesso a serviços de saúde, discriminação e redes
de apoio podem influenciar a forma como os danos aparecem e a possibilidade de
buscar ajuda.
Mais da metade dos apostadores brasileiros ganha até dois salários mínimos, e
beneficiários do Bolsa Família chegaram a movimentar R$ 3 bilhões em apostas em um
único mês — sinal de como as bets se infiltram entre as parcelas mais vulneráveis da
população.
Gênero e raça: A perspectiva de gênero também merece atenção. O III LENAD
mostra que os homens são maioria entre as pessoas que apostam: eles representam
cerca de dois terços desse grupo, enquanto as mulheres correspondem a
aproximadamente um terço. Isso não significa que as mulheres estejam protegidas dos
problemas relacionados às apostas. Diferenças nas formas de apostar, nas condições
de vida e no acesso ao cuidado precisam ser consideradas quando pensamos em
prevenção.
A dimensão racial também merece atenção. Entre as pessoas que apostaram em
2023, 64,1% se autodeclararam negras, proporção superior à participação da
população preta e parda no conjunto da população brasileira. Esse dado não permite
afirmar, isoladamente, que a raça determine o desenvolvimento de problemas com o
jogo, mas reforça a importância de considerar as desigualdades sociais e raciais nas
estratégias de prevenção e cuidado.
As diferenças de renda ajudam a compreender melhor esse cenário. Entre as
pessoas que apostaram e apresentaram jogo de risco ou problemático, 52,8%
recebiam até um salário mínimo, e o Ministério da Saúde destaca que fatores como
raça, gênero, classe social, educação, trabalho e renda podem se combinar e aumentar
a vulnerabilidade aos danos relacionados às apostas.
Os jovens também merecem atenção especial. No III LENAD, adolescentes de 14
a 17 anos que apostavam apresentaram uma proporção elevada de comportamento
de risco: 55,2% foram classificados nessa condição. Entre os adultos, a proporção foi
de 38,8%. As plataformas digitais têm papel importante nesse cenário, já que as
apostas on-line foram a modalidade mais utilizada entre os adolescentes que
apostavam.
Por isso, uma abordagem de prevenção não deve partir da ideia de que existe
um único perfil de pessoa que aposta de maneira problemática. É preciso considerar as
diferentes experiências de vida e as desigualdades que atravessam o cotidiano.
SINAIS DE ALERTA
Frequência crescente
Apostar cada vez mais, com valores
maiores, para sentir o mesmo efeito.
Tentativas frustradas de parar
Esforços repetidos para controlar o
comportamento, sem sucesso. Levando
alguns ao suicídio.
Sigilo
Mentiras ou segredos para esconder as
apostas de família e colegas.
Impacto no dia a dia
Dívidas, irritabilidade, ansiedade, queda
de desempenho, agressividade.
ENTENDA OS MOTIVOS

Todo Jogador começa no social e o processo vai evoluindo até virar um
transtorno / perda de controle. Em todas as etapas as perdas já podem acontecer.
E NO TRABALHO?
A relação entre transtorno do jogo e trabalho também traz questões jurídicas
que ainda estão sendo discutidas. A Consolidação das Leis do Trabalho inclui a prática
constante de jogos de azar entre as situações que podem levar à justa causa. Ao
mesmo tempo, o reconhecimento do transtorno do jogo como uma condição de saúde
coloca em debate como essa regra deve ser aplicada quando o comportamento está
relacionado a um quadro clínico e de saúde mental.
Mesmo quando as apostas acontecem fora do horário de trabalho, seus efeitos
podem chegar ao ambiente profissional. Preocupação constante com dinheiro, dívidas,
noites mal dormidas, ansiedade, irritabilidade e tempo gasto com apostas podem
afetar a concentração, a convivência, presenteísmo e a capacidade de realizar as
atividades cotidianas.
Prevenir não significa vigiar a vida financeira ou o celular das
pessoas. Significa criar uma cultura de cuidado, informação e respeito, na
qual falar sobre saúde mental e comportamentos aditivos seja possível
antes que o problema se agrave.
COMO UMA EMPRESA PODE CONTRIBUIR?
Uma boa prevenção começa por reconhecer que apostar não é uma forma
segura de complementar a renda. O resultado de uma aposta é incerto, e as perdas
podem se acumular rapidamente. Também é importante desconfiar da ideia de que
conhecimento sobre esportes, uma sequência de vitórias ou uma "estratégia"
garantirá resultados futuros.
Empresas podem fazer parte da prevenção. Informação clara sobre os riscos,
espaços seguros para conversar sobre saúde mental, orientação sobre onde buscar
atendimento e políticas que favoreçam o cuidado podem ajudar a reduzir o estigma e
facilitar a procura por ajuda. Favorecer prevenção continuada com objetivo de quebra
de crenças limitantes e fortalecer fatores de proteção.
É importante que situações relacionadas às apostas não sejam tratadas
automaticamente como falta de caráter, fraqueza, irresponsabilidade ou problema
disciplinar. O comportamento pode estar relacionado a um transtorno de saúde ou a
uma situação de sofrimento que precisa ser compreendida e cuidada.
A OMS recomenda uma abordagem de saúde pública para reduzir os danos
relacionados às apostas, com ações de prevenção, redução do estigma, regulação da
oferta e da publicidade e acesso a cuidado e tratamento. A prevenção não deve ficar
restrita à responsabilidade individual de quem aposta, especialmente em um contexto
de ampla disponibilidade e forte promoção comercial.
Por isso, falar sobre apostas de forma responsável é uma atitude de cuidado.
Não se trata de demonizar quem aposta, nem de considerar toda aposta um
problema. Trata-se de reconhecer que, para algumas pessoas, o comportamento pode
sair do controle e produzir consequências importantes para a saúde psicossocial, as
relações, a vida financeira e o trabalho.
Informação, diálogo e cuidado são formas de prevenção. Quanto mais cedo um problema é reconhecido, maiores são as possibilidades de interromper esse ciclo e proteger a saúde e a vida cotidiana.
• Selene Franco Barreto
Psicóloga e Consultora de Empresas
Diretora da Evolução Clínica e Saúde
• Juliana Dias
Psicóloga Clínica e Terapeuta de Ludopatia
• Sherydan Luiza de Oliveira
Assistente Social e Consultora de Saúde
REFERÊNCIAS
AGÊNCIA BRASIL; EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO (EBC). Bets: quatro em cada dez mulheres apostam ou já apostaram online. Brasília, DF: EBC, 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-08/bets-quatro-em-cada-dez-mulheres-apostam-ou-ja-apostaram-online. Acesso em: 18 ago. 2026.
AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. 5. ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2013.
BRASIL. Senado Federal. Comissão Parlamentar de Inquérito das Apostas Esportivas. Relatório final (CPI das Bets). Brasília, DF: Senado Federal, 2025.
BRASIL. Senado Federal. Data Senado. Pesquisa sobre hábitos de apostas online no Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 2025.
CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS "DR. JOÃO AMORIM" (CEJAM). Ludopatia: quando o jogo deixa de ser lazer e se torna um transtorno psicológico. São Paulo: CEJAM, 2025. Disponível em: https://cejam.org.br/noticias/ludopatia-quando-o-jogo-deixa-de-ser-lazer-e-se-torna-um-transtorno-psicologico. Acesso em: 18 ago. 2026.
DELLOSA; BROWNE, 2024 apud FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Jogos de aposta na contemporaneidade. Brasília, DF: Escola Fiocruz de Governo, 2025. Disponível em: https://efg.brasilia.fiocruz.br/ava/external/NUSMAD/jogos-de-aposta/M1.html. Acesso em: 18 ago. 2026.
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LARANJEIRA, Ronaldo Ramos; MADRUGA, Clarice Sandi (coord.). Caderno temático LENAD III: jogos de aposta na população brasileira: resultados 2023. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), 2025. Disponível em: https://lenad.uniad.org.br/cadernos-lenad/Caderno-Jogos-de-Aposta-LENAD-III.pdf. Acesso em: 18 ago. 2026.
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