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APOSTAS, TRABALHO E SAÚDE: RECONHECER SINAIS, PREVENIR DANOS, BUSCAR CUIDADO

1 de out.
6 min de leitura

As apostas estão cada vez mais presentes no cotidiano. No celular, nas redes sociais, nos sites, na mídia e nos aplicativos, apostar pode parecer uma forma simples de entretenimento ou uma maneira de tentar ganhar algum dinheiro. As apostas esportivas, em particular, passaram a fazer parte da conversa sobre futebol e outros esportes.


Mas existe uma diferença entre apostar ocasionalmente e desenvolver uma relação problemática com as apostas. Quando o comportamento começa a ocupar muito tempo e atenção, comprometer o dinheiro destinado às despesas, interferir no trabalho, na saúde psíquica ou nos relacionamentos sociais, ou quando a pessoa tenta parar e não consegue, é hora de olhar para a situação com cuidado.


A ludopatia — também chamada de transtorno do jogo — é uma condição de saúde mental reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS), com base neurobiológica e forte relação com desigualdade social, gênero e raça. Reunimos aqui um panorama científico e objetivo para apoiar lideranças e equipes.


A OMS inclui o transtorno do jogo na CID-11, na categoria de Transtornos Devidos a Comportamentos Aditivos. Esse foi também o primeiro comportamento não relacionado a substâncias reconhecido como transtorno aditivo pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5). Criado pela Associação Americana de Psiquiatria, esse manual serve como o guia oficial para médicos, psicólogos e profissionais que trabalham com saúde mental. Isso aproxima, clinicamente, o jogo patológico das dependências químicas, pois ele altera circuitos cerebrais de motivação, impulsividade e recompensa, e não é raro que funcione como forma de regular emoções ou fugir de situações difíceis.

Um detalhe importante nessa conversa: plataformas de apostas usam

engenharia comportamental — notificações, recompensas variáveis,

gamificação — desenhada para maximizar engajamento. O problema não

nasce só de uma escolha individual; ele é, em parte, construído pelo

ambiente ao redor da pessoa.


OS NÚMEROS NO BRASIL


+1,4 milhões

de brasileiros apresentam padrão de apostas

compatível com transtorno do jogo patológico,

segundo o III LENAD.


10,9 milhões

De brasileiros com 14 anos ou mais

apresentaram algum grau de risco ou

comportamento problemático relacionado ao

jogo.


52%

dos apostadores ouvidos pelo DataSenado

ganham até 2 salários mínimos por mês.


104%

Foi o aumento dos atendimentos relacionados

a jogo patológico e mania de jogo e aposta

registrados no SUS entre 2018 e 2025.


APOSTAR TAMBÉM É UMA QUESTÃO DE SAÚDE E DE DESIGUALDADE


Nem todas as pessoas estão expostas às apostas da mesma maneira e nem

todas enfrentam as mesmas consequências quando surgem problemas. Condições de

renda, trabalho, moradia, educação, acesso a serviços de saúde, discriminação e redes

de apoio podem influenciar a forma como os danos aparecem e a possibilidade de

buscar ajuda.


Mais da metade dos apostadores brasileiros ganha até dois salários mínimos, e

beneficiários do Bolsa Família chegaram a movimentar R$ 3 bilhões em apostas em um

único mês — sinal de como as bets se infiltram entre as parcelas mais vulneráveis da

população.


Gênero e raça: A perspectiva de gênero também merece atenção. O III LENAD

mostra que os homens são maioria entre as pessoas que apostam: eles representam

cerca de dois terços desse grupo, enquanto as mulheres correspondem a

aproximadamente um terço. Isso não significa que as mulheres estejam protegidas dos

problemas relacionados às apostas. Diferenças nas formas de apostar, nas condições

de vida e no acesso ao cuidado precisam ser consideradas quando pensamos em

prevenção.


A dimensão racial também merece atenção. Entre as pessoas que apostaram em

2023, 64,1% se autodeclararam negras, proporção superior à participação da

população preta e parda no conjunto da população brasileira. Esse dado não permite

afirmar, isoladamente, que a raça determine o desenvolvimento de problemas com o

jogo, mas reforça a importância de considerar as desigualdades sociais e raciais nas

estratégias de prevenção e cuidado.


As diferenças de renda ajudam a compreender melhor esse cenário. Entre as

pessoas que apostaram e apresentaram jogo de risco ou problemático, 52,8%

recebiam até um salário mínimo, e o Ministério da Saúde destaca que fatores como

raça, gênero, classe social, educação, trabalho e renda podem se combinar e aumentar

a vulnerabilidade aos danos relacionados às apostas.


Os jovens também merecem atenção especial. No III LENAD, adolescentes de 14

a 17 anos que apostavam apresentaram uma proporção elevada de comportamento

de risco: 55,2% foram classificados nessa condição. Entre os adultos, a proporção foi

de 38,8%. As plataformas digitais têm papel importante nesse cenário, já que as

apostas on-line foram a modalidade mais utilizada entre os adolescentes que

apostavam.


Por isso, uma abordagem de prevenção não deve partir da ideia de que existe

um único perfil de pessoa que aposta de maneira problemática. É preciso considerar as

diferentes experiências de vida e as desigualdades que atravessam o cotidiano.


SINAIS DE ALERTA


Frequência crescente

Apostar cada vez mais, com valores

maiores, para sentir o mesmo efeito.

Tentativas frustradas de parar

Esforços repetidos para controlar o

comportamento, sem sucesso. Levando

alguns ao suicídio.

Sigilo

Mentiras ou segredos para esconder as

apostas de família e colegas.

Impacto no dia a dia

Dívidas, irritabilidade, ansiedade, queda

de desempenho, agressividade.


ENTENDA OS MOTIVOS



Todo Jogador começa no social e o processo vai evoluindo até virar um

transtorno / perda de controle. Em todas as etapas as perdas já podem acontecer.


E NO TRABALHO?


A relação entre transtorno do jogo e trabalho também traz questões jurídicas

que ainda estão sendo discutidas. A Consolidação das Leis do Trabalho inclui a prática

constante de jogos de azar entre as situações que podem levar à justa causa. Ao

mesmo tempo, o reconhecimento do transtorno do jogo como uma condição de saúde

coloca em debate como essa regra deve ser aplicada quando o comportamento está

relacionado a um quadro clínico e de saúde mental.


Mesmo quando as apostas acontecem fora do horário de trabalho, seus efeitos

podem chegar ao ambiente profissional. Preocupação constante com dinheiro, dívidas,

noites mal dormidas, ansiedade, irritabilidade e tempo gasto com apostas podem

afetar a concentração, a convivência, presenteísmo e a capacidade de realizar as

atividades cotidianas.


Prevenir não significa vigiar a vida financeira ou o celular das

pessoas. Significa criar uma cultura de cuidado, informação e respeito, na

qual falar sobre saúde mental e comportamentos aditivos seja possível

antes que o problema se agrave.


COMO UMA EMPRESA PODE CONTRIBUIR?


Uma boa prevenção começa por reconhecer que apostar não é uma forma

segura de complementar a renda. O resultado de uma aposta é incerto, e as perdas

podem se acumular rapidamente. Também é importante desconfiar da ideia de que

conhecimento sobre esportes, uma sequência de vitórias ou uma "estratégia"

garantirá resultados futuros.


Empresas podem fazer parte da prevenção. Informação clara sobre os riscos,

espaços seguros para conversar sobre saúde mental, orientação sobre onde buscar

atendimento e políticas que favoreçam o cuidado podem ajudar a reduzir o estigma e

facilitar a procura por ajuda. Favorecer prevenção continuada com objetivo de quebra

de crenças limitantes e fortalecer fatores de proteção.


É importante que situações relacionadas às apostas não sejam tratadas

automaticamente como falta de caráter, fraqueza, irresponsabilidade ou problema

disciplinar. O comportamento pode estar relacionado a um transtorno de saúde ou a

uma situação de sofrimento que precisa ser compreendida e cuidada.


A OMS recomenda uma abordagem de saúde pública para reduzir os danos

relacionados às apostas, com ações de prevenção, redução do estigma, regulação da

oferta e da publicidade e acesso a cuidado e tratamento. A prevenção não deve ficar

restrita à responsabilidade individual de quem aposta, especialmente em um contexto

de ampla disponibilidade e forte promoção comercial.


Por isso, falar sobre apostas de forma responsável é uma atitude de cuidado.

Não se trata de demonizar quem aposta, nem de considerar toda aposta um

problema. Trata-se de reconhecer que, para algumas pessoas, o comportamento pode

sair do controle e produzir consequências importantes para a saúde psicossocial, as

relações, a vida financeira e o trabalho.

Informação, diálogo e cuidado são formas de prevenção. Quanto mais cedo um problema é reconhecido, maiores são as possibilidades de interromper esse ciclo e proteger a saúde e a vida cotidiana.



• Selene Franco Barreto

Psicóloga e Consultora de Empresas

Diretora da Evolução Clínica e Saúde

• Juliana Dias

Psicóloga Clínica e Terapeuta de Ludopatia

• Sherydan Luiza de Oliveira

Assistente Social e Consultora de Saúde


REFERÊNCIAS

AGÊNCIA BRASIL; EMPRESA BRASIL DE COMUNICAÇÃO (EBC). Bets: quatro em cada dez mulheres apostam ou já apostaram online. Brasília, DF: EBC, 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-08/bets-quatro-em-cada-dez-mulheres-apostam-ou-ja-apostaram-online. Acesso em: 18 ago. 2026.

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION (APA). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-5. 5. ed. Washington, DC: American Psychiatric Publishing, 2013.

BRASIL. Senado Federal. Comissão Parlamentar de Inquérito das Apostas Esportivas. Relatório final (CPI das Bets). Brasília, DF: Senado Federal, 2025.

BRASIL. Senado Federal. Data Senado. Pesquisa sobre hábitos de apostas online no Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 2025.

CENTRO DE ESTUDOS E PESQUISAS "DR. JOÃO AMORIM" (CEJAM). Ludopatia: quando o jogo deixa de ser lazer e se torna um transtorno psicológico. São Paulo: CEJAM, 2025. Disponível em: https://cejam.org.br/noticias/ludopatia-quando-o-jogo-deixa-de-ser-lazer-e-se-torna-um-transtorno-psicologico. Acesso em: 18 ago. 2026.

DELLOSA; BROWNE, 2024 apud FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Jogos de aposta na contemporaneidade. Brasília, DF: Escola Fiocruz de Governo, 2025. Disponível em: https://efg.brasilia.fiocruz.br/ava/external/NUSMAD/jogos-de-aposta/M1.html. Acesso em: 18 ago. 2026.

ESCOLA POLITÉCNICA DE SAÚDE JOAQUIM VENÂNCIO (EPSJV/FIOCRUZ). As bets trazem um grande problema de Saúde Pública. Rio de Janeiro: EPSJV/Fiocruz, 2026. Disponível em: https://www.epsjv.fiocruz.br/noticias/entrevista/bets-trazem-um-grande-problema-de-saude-publica. Acesso em: 18 ago. 2026.

FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ (FIOCRUZ). Epidemia das apostas online. Radis Comunicação e Saúde, Rio de Janeiro, 2025. Disponível em: https://radis.ensp.fiocruz.br/reportagem/saude-mental-reportagem/epidemia-das-apostas-online/. Acesso em: 18 ago. 2026.

LARANJEIRA, Ronaldo Ramos; MADRUGA, Clarice Sandi (coord.). Caderno temático LENAD III: jogos de aposta na população brasileira: resultados 2023. São Paulo: Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), 2025. Disponível em: https://lenad.uniad.org.br/cadernos-lenad/Caderno-Jogos-de-Aposta-LENAD-III.pdf. Acesso em: 18 ago. 2026.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (OMS). ICD-11 for mortality and morbidity statistics: 6C50 Gambling disorder. Genebra: OMS, 2025. Disponível em: https://icd.who.int/browse/2025-01/mms/en#1041487064. Acesso em: 18 ago. 2026.

 
 
 

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