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Liberdade de Ser no processo da Recuperação do Transtorno do Uso da Substancia. Bom de Mais o Carnaval ....




O carnaval chegou e com ele vem alegria, descontração, descanso e lazer. Fica uma euforia no ar pela agitação das pessoas que brincam o carnaval ou viajam, há ainda as que fazem compras para ter tudo em casa e nem precisar ir à rua...

Não importa como seja o seu feriado do carnaval, pois o importante é termos a consciência de nossos limites e que precisamos nos cuidar, termos uma relação empática e um comportamento mais humanizado.   

Algumas pessoas necessitam dobrar a vigilância por terem algum limite de saúde e precisam se cuidar. Por exemplo, quem tem câncer de pele deve evitar se expor ao sol ou usar muito protetor solar, chapéus ou bonés e roupas com proteção UV ou ainda, os dependentes químicos, por estarem em situações de risco por causa da abstinência, devem tomar certos cuidados para evitar a recaída, etc.

Quem tem Transtorno do Uso de Substancia (TUS), ou seja, é um dependente de álcool e outras drogas, precisa antes de ir para folia / festa, fazer um planejamento de Prevenção de Recaída, sozinho e/ou junto com a família, ver hábitos antigos que necessitam ser mudados para fortalecer a autoeficácia, frequentar grupos de AA ou NA a noite, presencial ou on-line, andar com o telefone de ajuda do profissional ou do padrinho dos grupos, manter as três refeições por dia, ficar com seu refrigerante, água, mate e/ou suco na mão, levar balas no bolso ou bolsa para comer algo doce, evitar a boca seca, ficar atento com quem oferece bebida alcoólica, ser assertivo, dizendo não, ficar atento com os comportamentos ilícitos e evitar discussões. Aproveite o dia e use a noite para descansar, não beba cerveja sem álcool, saia de casa sempre com o destino certo e volte com a certeza que só por hoje você conseguiu.    

Quero compartilhar com você uma história inspiradora, de autocuidado e aceitação do seu TUS, que neste ano vivenciou um carnaval de cara limpa e sem ressaca:

“Só de pensar em passar o carnaval sem beber eu chorava. E muito. Demorou mais de um ano, com tratamento intenso, pra superar esse luto da memória de toda uma vida conectando a alegria do carnaval à euforia do álcool. O medo de não poder aproveitar mais o que sempre me fez tão feliz. Medo de me sentir deslocada. Dos meus amigos não quererem minha companhia ou, pior, me acompanharem e me acharem chata. E o maior medo de todos, o de não me divertir, não gostar mais dessa festa linda e quente que me encanta desde criança.

A preparação foi grande e a ansiedade maior ainda: agenda de blocos, convites a amigas que não bebem e confirmação de presença também com os amigos de sempre, insônia, compra de fantasias e acessórios e muita, muita terapia e com planejamento de ir e voltar para casa.

Todos os medos se dissolveram ainda na primeira manhã de pré carnaval, ao som do primeiro tamborim estalando. O corpo todo ficou feliz de novo, só de ver as ruas de Santa Teresa cheias de gente colorida, e mesmo sem cerveja eu continuei amando me misturar à multidão suada que se espreme nas ruas atrás do bloco.

 

 

É claro que em alguns momentos a memória da cerveja gelada ainda volta, com os 30 anos de carnaval que passei bebendo, com uma determinada marchinha que toca e revolve lembranças, com os amigos que a gente fala o ano todo mas praticamente só encontra no carnaval, quando um ambulante passa gritando no calor intenso e em muitos outros momentos. Mas nada que me causasse tristeza ou auto-piedade.

O sentimento maior foi de orgulho de mim mesma por estar tão feliz com minha coca zero, consciente de tudo, dona do meu corpo e dos meus movimentos, aproveitando cada minuto da festa. De gratidão pelas novas e velhas amizades que estavam compartilhando daquela felicidade comigo. E o melhor: sem ter que passar horas atravessando bloco e esperando na fila do banheiro, gastando muito menos dinheiro, fazendo fotos maravilhosas e chegando em casa pronta pra outra, podendo contar em detalhes como foi tudo. Resumindo: só vi vantagens!

A sensação de acordar no dia seguinte lembrando de tudo, sem vergonha de nada, sem culpa, pra ir a mais um bloco, já sem medo e com a confiança de que eu posso me divertir comigo mesma, com meus amigos e com a festa, sem álcool, é indescritível.

Sou extremamente grata por todo o processo de desintoxicação e recuperação pelo qual venho passando há mais de um ano no tratamento ambulatorial e que envolve tanta gente.

No fim, no fundo é tudo sempre sobre gente. Gente que entende exatamente como você se sente porque já passou pelo mesmo e tem a generosidade de compartilhar a sua experiência. Gente que se especializou profissionalmente para ajudar pessoas com as dificuldades que você enfrenta. E gente que, embora não esteja no mesmo barco que você, tem empatia, conhecimento técnico e carinho suficientes pra mudar sua rotina, te apoiar no caminho e tornar o mar mais azul.

Para mim, sozinha não seria difícil. Seria impossível.

Nesse carnaval, fico muito feliz em poder celebrar perto de várias dessas pessoas a enorme conquista da sobriedade. Só por hoje e para sempre. “ - M.F.F.B.

É possível ter vida quando deixa de beber e de usar drogas ilícitas. Não é fácil..., mas é possível voltar a ter LIBERDADE DE SER E DE FAZER.

Aproveite o carnaval de cara limpa e sinta a Liberdade....

 

   Selene Franco Barreto

Psicóloga Clínica e Consultora,

Gestora da Evolução Clínica & Consultoria Presidente da ABEAD


Rio de Janeiro, 08 de fevereiro de 2024.

 

 

                                                                                                   

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