Dia Internacional da Mulher: uma reflexão sobre suas conquistas e a importância da prevenção do consumo de bebidas alcoólicas.

Artigo publicado em Março, 2017

Dr. José Mauro Braz de Lima, PhD.      

 

O trágico evento no início do século XX, em 25 de março de 1911, nos EUA (New York) quando morreram carbonizadas cerca de 130 mulheres operárias que reivindicavam direitos e igualdade nas condições de trabalho e salários em uma fábrica têxtil, fez com que a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 30 anos depois , em 1945, assinasse o primeiro acordo internacional na defesa dos direitos femininos. Seis anos depois, em 1951, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), assina documento estabelecendo princípios gerais, visando a igualdade de remuneração (salários) entre homens e mulheres (para exercício de mesma função). Os anos 60 o movimento feminista ganhou força junto com tantos outros movimentos jovens, marcados, principalmente pelos protestos e manifestações como sabemos, no campo das artes, da música, dos costumes, das relações sociais, e outros.  Neste sentido, na trajetória das conquistas femininas, a ONU instituiu em 1975 o Ano Internacional da Mulher como data comemorativa, ficando o dia 8 de março, como o Dia Internacional da Mulher. Contudo, apesar de todas as conquistas e avanços, as mulheres continuaram a sofrer diversas formas de violências e constrangimentos em casa, no trabalho nas ruas, nas redes digitais inclusive, sendo que nos últimos anos, a imprensa tem relatado cada vez mais casos de feminicídios. Segundo dados do Relatório do Mapa de Violência de 2015, o Brasil registra a 5ª maior taxa de assassinatos de mulheres no mundo (4.8/100 mil mulheres). Vale salientar que em nosso país, o número de mulheres assassinadas aumentou, sendo que entre as mulheres o aumento foi de 54%.

Outra relevante e séria questão de saúde que merece especial destaque refere-se ao significante aumento do consumo de bebidas alcoólicas e de outras drogas, inclusive medicamentos, o que acrescenta severa carga de sofrimentos e de doenças entre as mulheres quase se equiparando as taxas masculinas..

Embora, o século XX tenha sido marcado por importantes e inúmeras conquistas sociais, políticas e econômicas, em boa parte relacionadas com importantes movimentos feministas, como a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), hoje ainda restam muitas conquistas a serem alcançadas pelas mulheres na sociedade contemporânea. Nas últimas décadas, as mulheres ao se tornarem mais protagonistas e participativas nos ambientes sociais e de trabalho, vale notar o peso extra da dupla jornada de trabalho representada pelos afazeres domésticos (cuidados com os filhos e com a casa). Cada vez mais ficam expostas aos fatores de risco da vida moderna, antes mais restritos a vida dos homens (estresse do dia a dia e no ambiente de trabalho, modo de vida competitivo, agitação da vida moderna, violência urbana, acidentes de transportes e de trabalho, alimentação não saudável, etc..). Assim, enfermidades comuns que compromete a sociedade como um todo, passaram nas últimas quatro décadas a envolver o mundo feminino de forma significativa e preocupante. Vale destacar aqui casos de ansiedade, depressão, irritabilidade, distúrbio do sono, síndrome do pânico, doenças cardio-vasculares e cérebro-vasculares, diabetes, hipertensão arterial,  sobrepeso e obesidade, distúrbios gastrointestinais e pulmonares, neoplasias, consumo abusivo de álcool e de outras drogas, etc.,...

Uma condição que vem sendo motivo de relevante preocupação em nosso país é o aumento significativo do consumo de bebidas alcoólicas observado entre as mulheres. De acordo com os dados de estudos e pesquisas do Ministério da Saúde (DataSUS), do II Levantamento Domiciliar sobre Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil (CEBRID, 2006) realizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas da Universidade Federal de São Paulo e do II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (LENAD, 2013)- UNIAD-UNIFESP, esse aumento, sobretudo de cerveja, na última década foi de cerca de 30%, entre mulheres e jovens em geral, ao passo que entre os homens esse aumento foi bem menor, ficando em torno de 10%. Embora o aumento do consumo de álcool pelo público feminino tenha crescido em outros países, no Brasil esse aumento foi bem maior. A força do marketing visando o aumento do consumo de bebidas alcoólicas, nos últimos anos, se concentrou na população de jovens e de mulheres como segmentos de mercado mais promissores. O resultado é pode ser constatado, facilmente, pelo grande aumento da demanda de consumo desses segmentos. Face a esse crescimento do consumo, a produção de cerveja no Brasil registrou expressivo aumento: passou, em 10 anos de 7 a 8 bilhões de litros/ano para mais de 16 bilhões de litros/ano em 2016. Por outro lado, facilmente podemos constatar que, na atualidade, o que era comum entre os homens, hoje as mulheres em grupo ou sozinhas, sentadas em mesas ou nos balcões consumindo bebidas alcoólicas, principalmente cerveja “considerada mais leve” erroneamente (uma dose padrão de cerveja contém aproximadamente de 15 ml de álcool puro, a mesma quantidade a uma dose de destilados (40 ml) ou ainda a uma taça de vinho (150 ml) (Lima, 2008). No Brasil, o consumo total estimado de álcool puro é de cerca de 8,7L por pessoa, quantidade superior à média mundial. Estima-se que homens consumam 13,6L por ano, e as mulheres, 4,2L por ano. Quando são considerados apenas os indivíduos que consomem álcool, esta média sobe para 15,1L de álcool puro por pessoa (sendo mulheres: 8,9L e homens: 19,6L) (OMS - Relatório Global de Saúde 2014).

Se considerarmos a população feminina e de jovens podemos estimar que o consumo relativo, aumentou bem acima da média, ou seja, cerca de 200% (!). Assim, a advertência “Beba com moderação” não parece ter tido qualquer efeito para minimizar as consequências e prejuízos do alcoolismo, como se pode constatar nos ambulatórios e consultório das Clínicas especializadas e dos serviços médicos em geral, incluindo as emergências. Embora, alguns países desenvolvidos com elevado padrão de consumo semelhante ao Brasil (EUA, França, Inglaterra, Espanha, etc.), sofram com os problemas relacionados ao alcoolismo, nossa grande questão repousa sobre a deficiente rede de serviços de cuidados de saúde, além de carência de políticas públicas eficazes.

Certo de que o Alcoolismo representa uma das mais sérias questões de Saúde Pública em geral, no caso das mulheres algumas peculiaridades merecem destaques. De fato, as mulheres apresentam certa vulnerabilidade biológica em relação ao álcool, embora o metabolismo do etanol seja semelhante ao do homem. Em decorrência de fatores bio-psico-sociais, as manifestações clínicas e neuro-comportamentais se manifestam com algumas diferenças: maior suscetibilidade aos efeitos e menor resistência orgânico-metabólica ao álcool. Os sintomas decorrentes da ação do etanol são semelhantes aos apresentados pelos homens: polineuropatia, hepatopatia tóxica (esteatose ou cirrose), miocardiopatia, encefalopatia tóxica aguda ou crônica, entre outras manifestações. Contudo, muito provavelmente, dentro de algumas décadas iremos ter melhor idéia sobre as conseqüências relativas ao alcoolismo feminino. No sentido de reforçar o que foi exposto acima, vale a pena somar a esse contexto, reportagem publicada em uma revista semanal de grande circulação, matéria de capa com o título “Mulheres que Bebem Demais”, mostrando esse problema do preocupante aumento de consumo de álcool, sobretudo de cerveja, jamais observado antes.

Uma especial consequência alcoolismo feminino refere-se à importante e delicada questão no âmbito da Saúde Materno Infantil, que é o consumo de bebidas alcoólicas por mulheres grávidas. Neste caso, a preocupação é com os efeitos teratogênicos fetais que representam uma das causas mais frequentes de malformações e de deficiência mental em crianças. Trata-se da Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), subestimada por profissionais e autoridades que tratam da Saúde Materno-Infantil e representa a causa mais freqüente de deficiência cognitivo-comportamental não genética em muitos países do mundo. No Brasil, estima-se que a cada hora, nasçam três crianças portadoras de SAF, ou seja, cerca de 30 mil por ano, índice bastante elevado e que pode ser drasticamente diminuído através de Políticas Públicas consistentes (“Se beber não engravide, se engravidar não beba” - Lima, 2006).

Portanto, ao lado de tantas e importantes questões de saúde a serem destacadas que comprometem a Saúde da Mulher, devemos chamar a atenção para o aumento de consumo de álcool entre as mulheres que nos últimos anos vem sendo motivo de relevante discussão, a exemplo do que ocorre também em alguns países com elevado padrão de consumo de álcool, tais como França e EUA. Neste sentido, se fazem necessários mais estudos e pesquisas sobre o assunto com objetivos de elaborar e desenvolver ações e estratégias de enfrentamento, de informação e de educação, de atendimento e de prevenção.

Outro ponto para destacar com relação as mulheres é o Álcool e a Cirurgia Bariátrica. Uma pesquisa, publicada na revista Journal of the American Medical Association (Jama), mostrou  que pessoas dois anos após serem submetidos à cirurgia da redução do estômago, pacientes obesos correm mais risco de abuso e dependência de álcool. A conclusão veio de um estudo da Universidade de Pittsburgh, nos Estados Unidos. De acordo com os pesquisadores, a probabilidade é maior entre as pessoas que optaram pelos métodos gastrectomia vertical (conhecida como sleeve) e gastroplastia com desvio intestinal em Y de Roux, também denominada de bypass gástrico, o tipo mais popular dessa cirurgia no mundo e responsável por 70% do total analisado na pesquisa. A análise foi realizada em 2.458 adultos que fizeram cirurgia bariátrica entre 2006 e 2011, em dez hospitais americanos. Cerca de 80% eram mulheres, 87% de cor branca, com idade média de 47 anos e Índice de Massa Corporal (IMC) de 45,8. Teoria possível, relatada por psiquiatras e psicólogos, seria que após a mudança corporal seguido do aumento da auto-estima, o consumo exagerado de álcool seria uma forma de reengajamento social, outro ponto e á Troca de compulso, teoria mais aceita, ou seja, as pacientes com traços de compulsão alimentar no pré-operatório, quando submetido a restrição alimentar do pós-operatório, pode desviar sua compulsão para o consumo de bebidas alcoólicas, como uma forma de compensação.

Por fim, no que tange às Políticas Públicas, o Brasil precisa olhar com maior atenção as doenças e distúrbios relacionados ao consumo de álcool e de outras drogas (PRADs) que afligem a todos em geral, em especial, a população feminina jovem que deve merecer cuidados de prevenção especiais, como deve ser lembrado nesse Dia Internacional da Mulher como programa permanente.

A OMS recomenda cuidados para o consumo de bebidas alcoólicas entre as Mulheres:

 “A minha liberdade não deve procurar captar o ser, mas desvendá-lo”.

                                                                                   Simone de Beauvoir

 

Rio de Janeiro, 01 de março de 2017.

Dr. José Mauro Braz de Lima, PhD

Médico Neurologista;

Professor Associado de Medicina da UFRJ (aposentado);

Pós Doutorado em Neurociências – Universidade de Paris;

Especialista em Problemas Relacionados em Álcool e outras Drogas;

Diretor Médico da Evolução Clínica e Consultoria – Rio de Janeiro

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