A Copa do Mundo de Futebol na Rússia 2018 e o consumo de bebidas alcoólicas no Brasil: Oportunidade para algumas reflexões. 

“Nunca é demais atuar na prevenção”.

Por: José Mauro Brás de Lima [1]

É sem dúvida um grande momento de alegria e de satisfação vivenciar o lado festivo das torcidas de futebol, sobretudo com jovens e crianças, pelas ruas e  cidades de boa parte do mundo curtindo esse clima. Nesta Copa Mundial de Futebol na Rússia não é diferente como foi em 2014 no Brasil, nem nos outros campeonatos mundiais, quando desde 1930 a FIFA organiza esses belos espetáculos nos mais diversos países. O Brasil, hoje pentacampeão mundial, sede duas vezes, em 1950 e 2014, tem a especial distinção de ser o único país a ter participado de todos os campeonatos e está no caminho de ser hexa. Portanto, a Copa do Mundo é um dos mais importantes eventos esportivo do mundo, envolvendo mais de centenas  milhões de pessoas espalhadas pelo planeta, com efetivos benefícios, diretos e indiretos, para o turismo, comércio, indústria, diplomacia entre os países, além de ser grande evento de agregação e solidariedade humana. Para nós brasileiros, em especial, ao lado do Carnaval, são essas as festas mais importantes que envolvem quase toda população no clima de contentamento e entusiasmo e que alivia, de certo modo, esse nosso mal-estar ligado aos tantos problemas do mundo de hoje. Mas, agora é Copa, vamos torcer!

Contudo, sem querer "botar água no chope", vale lembrar neste momento, o outro lado tão importante quanto o clima de alegria e de descontração que é o elevado e preocupante consumo de bebidas alcoólicas nessas ocasiões, sobretudo de cerveja entre nós, e de vodka lá na Rússia. Não se trata de demonizar o álcool que acompanha nossa civilização desde antes das Olimpíadas da Grécia, A.C., mas de chamar a atenção para as deletérias consequências das complicações médicas, psicológicas e sociais, incluindo os acidentes de trânsito e a violência urbana. E nesta semana, como divulgado, a conhecida “Lei Seca” (Lei nº 11.705/2008) está fazendo e comemorando dez anos de atividades com relativos bons resultados.  Todavia, não se pode deixar de refletir sobre o aumento global do número de vítimas fatais de acidentes de trânsito neste período: de mais de 37 mil em 2008 para cerca de 45 mil mortes em 2016 (mais de 20%). Deste modo, cabe lembrar pesquisa da Polícia Rodoviária Federal (PRF) feita no período da Copa de 2014, focando as rodovias federais, quando foram registradas mais de 1.00 mortes em cerca de 10.000 acidentes (na maioria das vezes, jovens sob efeito de álcool!), sendo que 20% dessas vítimas ficariam sérias sequelas incapacitantes para vida e para o trabalho; naquele período de 2014, em pouco mais de um mês, foram flagrados mais de 3.500 motoristas dirigindo sob efeito de álcool, sendo que mais de 1.000 foram presos por infração grave de acordo com o levantamento da Lei Seca. Sem falar nas irreparáveis perdas de vidas humanas e nas sequelas graves, prejuízos materiais e de seguros e pensões, enormes somas de dinheiro podem ser somados aos gastos globais dessas tragédias anunciadas nas quais o consumo de álcool estava presente na maior parte da vezes. Portanto, é preciso chamar a atenção para as ações conscientização e de prevenção e aproveitar todos os momentos de oportunidades como este. É valido imaginar que aqueles números de 2014 podem se repetir hoje em 2018, até porque o consumo de álcool continuou a aumentar e a indústria de bebidas, sobretudo de cerveja, investiu pesado na publicidade e  marketing!

 

É preocupante constatarmos que o real aumento de produção e consumo de bebidas alcoólicas, principalmente de cerveja, coloca o Brasil entre os maiores produtores mundiais de bebidas alcoólicas! A maior empresa cervejeira do mundo, não por acaso, é brasileira. Outro aspecto preocupante é a banalização do consumo de álcool como fenômeno social observado nestas últimas duas décadas. Diferente do cigarro, a indústria de cerveja mostra forte envolvimento de marketing com diversos eventos esportivos (futebol, por ex.) e festividades com Carnaval, shows, e outros eventos festivos.  Agravos sobre a Saúde e a Segurança são parte dos efeitos colaterais que comprometem as pessoas que abusam de álcool conforme dados do Ministério da Saúde. A carga de doenças e de distúrbios decorrente do Alcoolismo, incluindo acidentes e violência urbana, tem merecido cada vez mais, a atenção da própria OMS e dos muitos governos em geral (http://apps.who.int/classification/ICD10/browse/2016/en#/F10.1). Segundo relatórios recentes da ONU/PMS, o abuso de bebidas alcoólicas responde por 6,6% do número global de mortes (Global Death) e por 5,1% do peso global doenças ("Global Burden Disease/year"). Neste grupo de enfermidades que estão relacionadas ao abuso de álcool, podemos citar por ordem de prevalência: as doenças cardiovasculares, casos de traumas/acidentes, enfermidades grastro-intestinais e hepáticas, doenças oncológicas, distúrbios neuropsiquiátricos, a SAF, etc.,... O Brasil se coloca entre os países que mais têm problemas relacionados ao abuso de álcool, agravados ainda mais pela precariedade da rede pública do Sistema de Saúde (SUS) e pela efetiva falta de Políticas Públicas de Saúde. Essa “Copa da Saúde”, infelizmente, nós brasileiros estamos, mais uma vez, perdendo "7 a 1"!   

Ainda precisamos dar conta de um outro problema mal esclarecido e que deve ser melhor respondido. Trata-se de  como a Lei nº 9.294/1996 que restringe, efetivamente, a propaganda de cigarros e de bebidas alcoólicas, não se aplicou às cervejas?! No Brasil, e só aqui, a cerveja parece não estar "enquadrada" (classificada) como bebida alcoólica conforme a legislação, tendo a sua propaganda liberada no horário comercial em todos os meios de comunicação, ao contrário do que acontece com o cigarro, vinhos e destilados (cachaça, uísque, vodka,...). O argumento de ter teor alcoólico de 5% ou 5º GL (graus Gay-Lussac), é enganoso (e quase pueril!), uma vez que a própria OMS (CID-10-revisão de 2016, ver site WHO) adota como critério de definição de bebida alcoólica, a concentração de álcool puro, ou seja, acima de 10 gr de álcool puro por dose padrão de cada tipo de bebida (fermentadas ou destiladas). Com isso podemos verificar, fácil e simplesmente, que uma dose/copo de cerveja (teor de 5%) ou chope de 300 ml (lata, 350 ml), uma taça de vinho (teor de 10 a 12%) de 150 ml, ou uma dose de cachaça (40%) ou de vodka, ou de uísque, de 40 ml a dose,  possuem, praticamente, a mesma quantidade de álcool puro/dose padrão, isto é, cerca de 12 a 14 gramas (ou 15 a 17 ml por dose).É questão de se usar uma simples regra de três. Não conseguimos ver de onde saiu a falsa ideia, a "fake news", do imaginado nível do teor alcoólico de 13,5º GL (graus Gay Lussac), "aprovado" no Congresso em Brasília e embutido no "contexto" da Lei 9.294/1996, que fez validar a ideia de que a cerveja, por ter teor de 5%, escapasse da recomendação legal da restrição de propaganda de cigarros e de bebidas alcoólicas. A “não classificação” da cerveja como bebida alcoólica fica, assim, em franco desacordo com o conceito adotado pela OMS/ONU. Sendo assim, na blitz da Lei Seca, quem bebesse cerveja poderia dirigir, pois que esta, segundo a lei, não seria bebida alcoólica (!?). No entanto, cerveja também embriaga e pode ser fator efetivo de risco nos acidentes!

Enfim, nós profissionais de saúde que tratamos de pessoas com problemas relacionados ao consumo (uso, abuso e dependência) de álcool (e de outras drogas), pela perspectiva da abordagem bio-psico-social, consideramos como da mais alta relevância e oportunidade, chamar a atenção de todos, direta ou indiretamente envolvidos, para essas considerações sobre uma das mais sérias questões de Saúde Pública que é o Alcoolismo no Brasil, como é também em muitos países. Vamos, então, torcer também para que consigamos avançar no enfrentamento desse difícil jogo contra os “Problemas Relacionados ao consumo de Álcool (e de outras Drogas)” (PRADs). E viva a nossa seleção canarinho!

Dr. José Mauro Braz de Lima, PhD.

(Diretor Médico da Clínica Evolução, Membro da ABEAD, Membro da Soc. Francesa de Alcoologia e Adictologia, Membro do Conselho da ABRAMET, Prof. Assoc.IV da Fac. de Neurologia da UFRJ) e Membro da ABEAD, 

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