Notícia

Entrevista com Selene Barreto

 

10.02.2009

 

A psicóloga e diretora da Evolução Clínica & Consultoria, Selene Barreto, concedeu recentemente uma entrevista ao Boletim Eletrônico da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead). Durante a conversa, ela contou um pouco mais sobre sua experiência de trabalho com empresas e também na área de consultoria.

Confira abaixo a entrevista na íntegra:

Formada em Psicologia Clínica pela Universidade Celso Lisboa (RJ) e Pós-graduada em Prevenção de Drogas na Universidade Cândido Mendes (RJ), Selene Franco Barreto é Diretora Geral da Evolução Clínica & Consultoria. Com MBA em Gerência de Saúde realiza trabalhos como coordenadora e consultora de vários projetos de prevenção e tratamento dos usuários e dependentes de álcool, tabaco e outras drogas. Especialista em dependência química, Selene é secretária da Abead na gestão atual. Confira a entrevista exclusiva que a psicóloga gentilmente concedeu ao nosso Boletim!


1. Como lidar com problemas relacionados a álcool e drogas dentro de uma empresa?


É manifesto no meio profissional que hoje um Programa de Atenção e Prevenção aos Problemas Relacionados ao Álcool e outras Drogas (PAP – PRAD) nas empresas contribui para elevar os índices internos de saúde e segurança, como também diminuir os prejuízos e a vulnerabilidade da empresa - prejuízos pessoais e patrimoniais - considerando que os problemas provocados pelo uso abusivo de álcool geram um custo superior a R$ 33 bilhões de reais para o governo (fonte: Jornal do Brasil, edição de 12/05/2008). Os gastos com as despesas no atendimento direto do tratamento de alcoolismo ficaram em torno de R$ 36,8 milhões para os cofres da União, no período entre 2002 e 2006, de acordo com o Ministério da Saúde. As questões relacionadas ao álcool e outras drogas vão muito além da percepção desta realidade. Trata-se de uma mudança de mentalidade, isto implica acabar com o estigma de colaboradores, e às vezes até de empregadores, em relação às muitas “pré-concepções” acerca do uso/abuso de substâncias psicoativas. Quando se implanta uma Política em uma empresa, é importante que ela seja clara e consistente para todos. A postura de cada indivíduo envolvido - colaboradores, quadro de diretores, gerência, presidência, e até representantes do sindicato – deve ser, sobretudo, de parceria. Desse modo, todos terão a oportunidade de perceber que um ambiente de trabalho livre de álcool e drogas, torna-se um lugar seguro, não só para o empregado, como também para a sua família, o que repercute diretamente na qualidade de vida do trabalhador e de toda a comunidade. Através do PAP-PRAD, as empresas evidenciaram uma atuação efetiva da responsabilidade social ao investirem na orientação/informação de usuários e indivíduos com padrões abusivos de consumo e na recuperação de dependentes químicos. O enfoque da segurança, a partir da perspectiva da prevenção, através da testagem toxicológica, fez com que as empresas se tornassem, de fato, um local seguro e saudável para trabalhar.

2. Quais são as estratégias que uma empresa pode adotar para prevenir e/ou remediar a situação de um funcionário que é dependente químico?

Infelizmente, os indivíduos considerados dependentes químicos representam uma parcela significativa da população brasileira. Só em relação ao álcool, 12,3% brasileiros, com idade entre 12 e 65 anos, sofrem do quadro clínico de dependência (Cebrid / SENAD, 2005). Além dessa comprovação, a Organização Internacional de Trabalho (OIT) informa que entre 10% e 12% da população economicamente ativa, acima de 14 anos, possui problemas de dependência de álcool. Já a Organização Mundial de Saúde (OMS) informa que 70% dos indivíduos possuem problemas de abuso de álcool e que 63% (usuários de outras drogas) estão empregados. Essas evidências não são, muitas vezes, tão visíveis para os empregadores, mas são bastante palpáveis no cotidiano das equipes de saúde e/ou dos setores de RH. Esses profissionais estão sempre buscando recursos na sociedade para encaminhar o colaborador para tratamento e recuperação - tudo é claro, de forma sigilosa e sem rótulos. Hoje as estratégias são elaboradas para todos os colaboradores que possam ter problemas, dentro das empresas, com o uso, o abuso e a dependência de álcool e de outras drogas. A prevenção, sempre, através de educação, informação, recuperação e testagem. Os testes toxicológicos servem como base para detectar possíveis problemas relacionados ao uso/abuso e dependência de álcool e de outras drogas no ambiente de trabalho.

3. Na área de consultoria, qual é a melhor forma de atingir e sensibilizar as pessoas sobre o risco e os males do uso de drogas?

Através do diálogo permanente sobre o PRAD com a equipe de saúde e com o setor de RH. O estar junto, motivando o trabalho de Qualidade de Vida, é essencial. Além disso, deve haver uma real abertura e disponibilidade para orientar os indivíduos com problemas relacionados ao uso de substâncias psicoativas assim que a necessidade de ajuda for identificada. O trabalho do consultor envolve a conscientização e dissolução de preconceitos e, a partir daí, mostrar o impacto desse fenômeno na saúde, na segurança e na economia mundial. Deve-se despertar e encorajar a reflexão sobre o tema nos empresários e diretores das empresas. Fazendo um paralelo com a clínica: paciência, habilidade e perseverança são fundamentais para o processo de reposicionamento frente às questões pertinentes à gestão de pessoas. Infelizmente, a fase de aceitação chega, muitas vezes, sob a forma de um evento extremo, como por exemplo, acidente grave ou morte de um colaborador. “O Desenvolvimento de um programa de prevenção contra o uso de drogas pela empresa está diretamente ligado, não só à integridade dos funcionários, mas também à saúde da própria organização” – Duarte, PCAV; SENAD; 2008

4. Quais são as novidades que você tem desenvolvido para auxiliar e criar novos métodos de prevenir o uso de substâncias psicoativas dentro de empresas?

Nos últimos anos, estamos desenvolvendo, em conjunto com o setor de RH e/ou de Saúde e de Segurança das empresas, o Diagnóstico Situacional (DS) que consiste em um instrumento norteador das estratégias de Prevenção. O objetivo principal do DS é o mapeamento pontual dos Problemas Relacionados ao Uso/Abuso e Dependência de Álcool e de outras Drogas. A partir daí, é possível traçar o perfil sócio-demográfico do quadro de colaboradores e de possíveis situações de risco em relação ao impacto sobre a saúde e as repercussões - diretas e/ou indiretas - para a própria empresa. Portanto, o DS visa identificar as necessidades e orientar, de forma qualitativa e quantitativa, as ações mais adequadas para prevenir, orientar e recuperar os colaboradores. Tudo isso deve ser feito de forma sigilosa, garantindo o caráter confidencial das informações. Vale à pena ressaltar o fato de estarmos sendo procurados pelas empresas com maior freqüência para implantar a testagem, isto é, a análise toxicológica e orientar os empregadores quanto aos procedimentos padrão. Ainda há muita discussão e certa polarização de algumas empresas no Brasil. Algumas instituições brasileiras nos procuram para implantação da testagem por estar trabalhando com empresas norte-americanas, que exigem este programa no contrato. Outras empresas percebem as vantagens preventivas da testagem: a detecção precoce de um colaborador com Problemas de Álcool e outras Drogas incrementa a segurança da empresa, garante o padrão de qualidade de seus produtos e serviços e melhora a imagem da empresa no mercado, ou seja, um programa de testagem é uma forma de prevenção e evita, impede, retarda, reduz ou minimiza o uso, o abuso ou a dependência no local de trabalho.

5. Você também tem experiência em atender funcionários com dependência química das empresas. Como é esta realidade?


Sim, de fato, são vinte e sete anos trabalhando nesta área, atendendo os colaboradores com dependência química nas empresas. Hoje, através do olhar diferenciado dos problemas relacionados, o enfoque não se limita ao indivíduo dependente químico, mas a todos envolvidos na rede do consumo, como usuários e indivíduos que possuem padrões de consumo abusivos. Através da Intervenção Breve orientamos, prevenimos e buscamos mudar o comportamento daqueles que fazem uso indevido de álcool e drogas no local de trabalho. Quando a empresa possui uma política clara e consistente, isso nos permite fazer a assistência em um estágio precoce da problemática da dependência química. Por outro lado, quando não há tal política, a tendência comum é recebermos os dependentes químicos em estágios avançados e, já apresentando seqüelas sérias, isto é, necessitando, geralmente, de desintoxicação clínica e do trabalho próximo e constante com a família. “O conceito de Problemas Relacionados ao Álcool e outras Drogas (PRAD) vem sendo incorporado no âmbito da saúde e da segurança, em face da maior abrangência das conseqüências e dos prejuízos vinculados às questões das drogas na população em geral. Igualmente, vale salientar que a implantação da Política de assistência se justifica por atender melhor na perspectiva da Saúde Pública, que não só atende aos aspectos médico, psicológico, social, mas também incorporam de modo efetivo as ações e as estratégias de natureza preventiva favorecidas hoje pelas leis recém implantadas no bojo das novas Políticas Públicas” - (Lima, JMB / UFRJ, Alcoologia /2007).

6. Com relação à sua gestão na ABEAD, quais são as propostas e as expectativas para 2009?


Como estamos em uma gestão que passa por grandes mudanças, continuo bastante entusiasmada com a oportunidade de ajudar nas ações de associação - nas quais sinceramente acredito - pela seriedade e comprometimento científico que essas ações demonstram, principalmente, quando se pode contar com a inestimável parceria da nossa querida Presidente, Analice, em 2009. O crescimento da ABEAD foi perceptível e, continuamos a ter como meta uma expansão que atenda, com qualidade e ética, às necessidades da comunidade como um todo. Houve um encontro com toda a diretoria em 2008 que foi bastante frutífero: elaboramos o planejamento estratégico interno; definimos ações específicas, visando à mudança e ao crescimento. Desse modo, estamos envolvidos, de forma constante, com a produção e o desenvolvimento de conhecimento, estratégias e de soluções.

- Novo site, mais interativo, para os associados;
- Informatização de pagamentos – geração de boletos bancários on-line;
- Aumento do número de associados;
- Um número maior de estudantes integrando nossa associação;
- Reestruturação das parcerias regionais;
- Informativo on-line atualizado semanalmente;
- Novos parceiros e resgate dos antigos;
-Produção de novos Simpósios Regionais;
- A construção do congresso de 2009.

 

 

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