Neurociências

Neurociências
"A tarefa das Neurociências é explicar o comportamento em termos de atividade cerebral. Como o cérebro organiza e articula milhões de células nervosas individuais para gerar o comportamento e como estas células são influenciadas pelo ambiente externo...? A última fronteira das Ciências Biológicas - seu desafio último – é entender a base biológica da consciência e os processos mentais através dos quais percebemos, agimos, aprendemos e recordamos." — Eric Kandel, Princípios de Ciência Neural, 4ª edição.
O enigma do cérebro
A medicina debruçou-se, e continua a fazê-lo até hoje, sobre o estudo de órgãos como coração, fígado, pulmões; enfim, órgãos que se mostraram mais acessíveis ao entendimento da complexa engrenagem do organismo humano. Ainda assim, sem deixar de lado uma visão sistêmica do funcionamento orgânico, o terreno das múltiplas inter-relações entre corpo e mente - e seu correlato anatômico: o cérebro - não foi plenamente explorado. Vários fenômenos mentais permanecem ainda envoltos em certa nebulosidade. Muito se pensou e muito se produziu, pois o organismo desde sempre demandou trabalho, muito trabalho, seja na saúde, seja na doença. Diversas construções teóricas foram erguidas e aprovadas pelo teste de realidade, obedecendo a premissas pragmáticas, e/ou de cientificidade. A neurociência enriqueceu e ampliou os campos já conhecidos, produziu novas conexões e criou novas áreas de pesquisa a partir delas. Nunca estivemos tão próximos do que nos diz respeito: o cérebro humano. Os estudos in vivo e as técnicas não invasivas de neuroimagem tornaram o uso de animais e de máquinas menos necessários como modelos substitutivos, até sofisticados (no caso das redes neurais), porém ainda limitados para dar conta da complexidade da natureza humana. Isso representa um imenso avanço para a compreensão mais refinada e racional dos processos biológicos e psicológicos inerentes à espécie. Por outro lado, como Sócrates bem frisou, ao reconhecer que a sua sabedoria sofria a limitação da sua ignorância: "Só sei que nada sei", o avanço do conhecimento traz consigo o seu reverso, ou seja, a ignorância. Sendo assim, a Neurociência serviu a dois propósitos: aumentou o nosso conhecimento e também a nossa ignorância.
Alguns dos problemas ainda sem solução da Neurociência:
• Consciência: Qual é a base neuronal da experiência subjetiva, do estar acordado, do estado de alerta, do interesse e da atenção? Qual é a sua função?
• Percepção: Como o cérebro transfere informação de ordem sensorial em percepções coerentes e particulares? Quais são as regras que organizam a percepção? Quais são as características/objetos que constituem a experiência perceptual de eventos internos e externos? Como os sentidos se integram? A percepção do rosto é especial (ex.: inata)? Qual é a relação entre experiência subjetiva e mundo físico?
• Aprendizagem e Memória: Onde ficam armazenadas as nossas lembranças e como são novamente recuperadas? Como melhorar o processo de aprendizagem? Qual é a diferença entre memória explícita e implícita?
• Neuroplasticidade: Quão plástico é o cérebro maduro?
• Desenvolvimento e evolução: Como e por que o cérebro evoluiu (o modo como isso ocorreu)? Quais são os determinantes moleculares do desenvolvimento cerebral individual?
• Sono: Por que sonhamos? Quais são os mecanismos cerebrais subjacentes? Qual é a relação com a anestesia?
• Cognição e Decisão: Como e onde o cérebro avalia o valor da recompensa e do esforço (custo) na modulação do comportamento? Como a experiência prévia altera a percepção e o comportamento? Quais são as contribuições genéticas e ambientais para as funções cerebrais?
• Linguagem: Como a linguagem é implementada no nível neuronal? Qual é a base do significado semântico?
• Doenças: Quais são as bases (causas) neuronais das doenças mentais, como os distúrbios psicóticos (ex.: mania, esquizofrenia), Doença de Parkinson, Doença de Alzheimer ou da Dependência Química? É possível recuperar a perda das funções sensitiva e motora?
A Natureza Interdisciplinar da Neurociência
A Neurociência, de um modo geral, abrange os estudos científicos que envolvem o sistema nervoso. A Psicologia, como o estudo científico dos processos mentais, pode ser considerada um ramo da Neurociência, embora alguns teóricos do corpo/mente afirmem que a definição aponta para outra direção — que a psicologia é um estudo dos processos mentais, que pode ser modelado por muitos outros princípios abstratos e teorias como o Behaviorismo e a Psicologia Cognitiva tradicional, por exemplo. Esses constituíram-se independentemente dos processos neurais subjacentes.
O termo Neurobiologia pode ser, às vezes, usado de modo intercambiável com a Neurociência, embora o primeiro refira-se à biologia do sistema nervoso; enquanto o segundo, refira-se à ciência das funções mentais. No seu livro Princípios de Ciência Neural, Eric Kandel, premiado com o Nobel de Fisiologia/Medicina (2000), afirma que a Psicologia Cognitiva é um dos pilares da Neurociência na compreensão do cérebro.
A natureza interdisciplinar da Neurociência implica certa sobreposição e diálogo com disciplinas ou campos de conhecimento variados. Citando apenas alguns, dentre muitos: Neuropsicologia; Neuropsiquiatria; Neurofisiologia; Psicofarmacologia Neuropsicofarmacologia; Neurolinguística.
A amplitude alcançada foi tão significativa que, em um momento posterior, estendeu-se às Ciências Sociais e outros campos interdisciplinares novos em rápida expansão como, por exemplo, a Neuroeconomia, a Teoria da Decisão e a Neurociência Social. Estes novos campos de conhecimento estão trazendo à tona questões mais complexas acerca das interações do cérebro com o meio externo, no sentido do contexto cultural a que pertence.
A Neurociência transita não só por diversos campos, mas por diversos níveis dentro de um mesmo campo. No nível dos sistemas, dentro da área biológica, algumas questões relevantes consistem no modo como os circuitos são formados e operam anatomica e fisiologicamente a fim de produzirem as funções fisiológicas, tais como os reflexos, integração dos sentidos, coordenação motora, ritmos circadianos, respostas emocionais, aprendizagem e memória.
Quanto ao nível cognitivo, a neurociência lida com questões acerca do modo como as funções psicológicas/cognitivas são geradas pelos circuitos neuronais. O advento das novas técnicas de medida da Neuroimagem, da eletro-fisiologia e da análise genética humana, combinadas às técnicas experimentais sofisticadas da Psicologia Cognitiva permitem que neurocientistas e psicólogos formulem questionamentos mais sofisticados. Por exemplo: Como a cognição e a emoção humanas são mapeadas e que circuitos neuronais específicos estão em atividade?
Neuroimagem – o avanço do observável
A Neuroimagem consiste no conjunto de técnicas voltadas para, direta ou indiretamente, visualizar a estrutura, as funções e a farmacologia do cérebro. É uma disciplina relativamente nova, pertencente ao campo da Medicina e da Neurociência/Psicologia.
Há duas amplas categorias:
• Estrutural: lida com a estrutura do cérebro e com o diagnóstico de doenças e lesões intracranianas em uma escala maior. Ex.: tumores.
• Funcional: usada para diagnosticar doenças metabólicas e lesões em uma escala mais refinada, além da utilidade para a pesquisa na neurologia, psicologia cognitiva e na construção de interfaces entre o cérebro e o computador. Ex.: Doença de Alzheimer.
A neuroimagem funcional permite, por exemplo, a visualização direta do processamento de informações realizado nos centros cerebrais. A área cerebral relativa a determinado processamento sofre aumento do seu metabolismo e "acende" no scan.
Algumas técnicas ou exames mais conhecidos:
• Tomografia Computadorizada ou TC Axial (CAT, em inglês): utiliza uma série de raios X da cabeça tirados de diferentes direções. Aponta imagens relativamente boas de lesões cerebrais em questão de alguns minutos. Através de um programa de computador, a informação é apresentada na forma de cortes transversais do cérebro. De modo aproximado, quanto mais denso o material, mais branco o volume dele no scan. O CAT aponta a inflamação derivada do dano no tecido nervoso e o tamanho do ventrículo.
• Ressonância Magnética - RM - (MRI, em inglês) – a RM utiliza campos magnéticos e ondas de radio para produzir imagens em duas ou três dimensões de estruturas cerebrais com alta definição, sem recorrer ao uso de radiação (raios X) ou marcadores radioativos. Os mecanismos de detecção são tão precisos que as mudanças estruturais podem ser visualizadas com o passar do tempo. Durante o procedimento, pode-se ter acesso a anatomia do cérebro com alto grau de resolução, além de ser possível identificar inflamação ou sangramento. No entanto, a RM não fornece dados sobre o metabolismo cerebral durante o exame.
• Ressonância Magnética Funcional – RMf (fMRI, em inglês) – enquanto a RM fornece apenas informação estrutural do cérebro, a RMf possibilita o acesso tanto aos dados estruturais quanto funcionais. A RMf conta com as propriedades paramagnéticas da hemoglobina (oxigenada e desoxigenada) para ver as imagens das mudanças do fluxo sanguíneo no cérebro, associadas à atividade neuronal. As imagens geradas refletem quais estruturas cerebrais estão ativas (e como) durante o desempenho de tarefas diferentes. Este exame traz informação significativa sobre como percepção, pensamento e ação são processados. Nos experimentos, os participantes são expostos a variados estímulos visuais, auditivos e táteis, além de serem orientados para responder aos estímulos, por exemplo, apertando botões. Durante o desempenho de uma tarefa, as áreas respectivas ficam ativadas, devido à alta sensibilidade deste procedimento às mudanças no fluxo sanguíneo. Por conta desta sensibilidade, a RMf torna-se valiosa na detecção precoce das mudanças cerebrais características da isquemia (fluxo sanguíneo muito abaixo do normal), assim como as que sucedem um derrame.
• Tomografia de Emissão de Pósitrons ou PET-scan (PET, em inglês) – exame que utiliza radionuclídeos que emitem pósitrons quando ocorre a desintegração, os quais são detectados para formar as imagens do exame. Utiliza-se glicose ligada a um elemento radioativo (normalmente Flúor radioativo) injetada corrente sanguínea. As regiões onde a glicose, em excesso ou acumulada, está sendo metabolizada, tais como tumores ou regiões do cérebro em intensa atividade, aparecerão em vermelho na imagem criada pelo computador. Os dados da emissão são processados por computador, gerando imagens em 2 ou 3 dimensões da distribuição das substâncias químicas no cérebro como um todo. A maior vantagem do PET é que diferentes combinações de elementos químicos podem mostrar o fluxo sanguíneo, de oxigênio e o metabolismo de glicose nos tecidos do cérebro em atividade. Além disso, dentre todos os métodos de imagem metabólica, o PET era o melhor recurso em termos de resolução e velocidade (em torno de 30 segundos). Por outro lado, a sua desvantagem reside no rápido decaimento da radioatividade (o Flúor possui semi-vida de 2 horas), ou seja, o monitoramento fica limitado a tarefas realizadas em um curto espaço de tempo. Bastante usado no auxílio de diagnósticos de doenças cerebrais, principalmente, porque a maioria delas provoca mudanças significativas no metabolismo cerebral. Tumores, derrames, e doenças neurodegenerativas que causam demência (Doença de Alzheimer) geram mudanças facilmente detectadas pelo PET-scan. Em alguns casos de demência, os danos iniciais são muito difusos e mostram pouca diferença, em termos de volume e de estrutura, se comparados às alterações (atrofia cortical) naturais do processo de envelhecimento do cérebro (em muitas, mas não necessariamente em todas as pessoas), que não evoluem para um quadro de demência clínica.
A visualização dos efeitos das drogas no cérebro:
Há certo consenso quanto a 3 formas básicas do efeito farmacológico de drogas no sistema nervoso. As substâncias psicoativas podem ser classificadas como:
1 - Estimulantes (lépticas);
2 - Depressoras (analépticas);
3 - Modificadoras (dislépticas) - nesse último grupo estão os alucinógenos (enteógenos).
Sobre o lugar do psicólogo nas Neurociências:
Sendo a Psicologia o "espaço de dispersão" par excellence do campo das ciências humanas, expressão bem colocada por Luiz Alfredo Garcia-Rosa (professor do Instituto de Psicologia da UFRJ e escritor), o psicólogo é aquele que possui todos os recursos para sentir-se bastante à vontade na Neurociência. A formação acadêmica, o currículo mais precisamente, oferece a oportunidade de um trânsito constante pelas mais diversas áreas do saber. A Biologia, a Filosofia, a Antropologia, a Economia, a Estatística serão para sempre pertinentes ao estudo e à prática do psicólogo. Impossível não dialogar com essas áreas. Além disso, a formação não deve se restringir à academia. Um profissional interessado em como "gente" funciona, deveria manter contato amplo e variado com a literatura, a arte, a música, o teatro, a religião, com estudos filosóficos, históricos e antropológicos, assim como também com os psicobiológicos e etológicos. Tarefa interminável. Talvez, uma vida seja curta demais para conhecer tanto, mas nem por isso, a jornada perde o seu encanto. A Neurociência está presente como evidência de que o ser humano é por demais complexo para caber em modelos teóricos com fundamentos sólidos, sobre os quais seja possível construir um conhecimento verdadeiro.
A fragmentação encontrada no curso de graduação, derivada das rixas teóricas entre as diversas escolas de pensamento - com suas teorias da personalidade, técnicas psicoterápicas e métodos de investigação do comportamento humano – ao invés de confundir, traduz uma pluralidade de experiências, possível apenas (e exclusivamente) devido à própria natureza ampla, difusa e fascinante da Psicologia. Se a Psicologia perpassa e atravessa tudo o que diz respeito à espécie humana, como pode o psicólogo desperdiçar esse dom trancando-se em um único modelo teórico, "ensurdecendo" para o que quer que pinte de novo, de diferente? Não corramos o risco de cair nas armadilhas aparentemente seguras dos extremos, isto é, do dogmatismo e do ecletismo. Nem o rigor paralisante do primeiro, nem a falta de rigor do segundo. Ambas minam a disponibilidade do indivíduo para a experiência do encontro com o outro no patamar mais honesto que há: o da condição humana. Única referência que denuncia que estamos "todos no mesmo barco".
A Neurociência misturou-se com tudo: Economia, Física, Marketing, Medicina, Informática, Psicologia, entre outras, para enumerar algumas áreas. Será o resultado da limitação das ciências, tomadas isoladamente, na tentativa de ordenarem o mundo e a relação dos seres humanos?
Leituras recomendadas:
1 - Oliver Sacks (Neurologista):
• Tempo de despertar (1973);
• O homem que confundiu sua mulher com um chapéu (1985);
• Um antropólogo em Marte (1995).
2 - Robert Sternberg (Psicólogo):
• Psicologia Cognitiva, 4ª edição.
3 - Luís Cláudio M. Figueiredo (Psicólogo):
• Revisitando as Psicologias, 4ª edição (1996).
4 - L.A. Garcia-Roza (Escritor):
• Achados e Perdidos (1998)
5 - William K.C. Guthrie ( Professor de Filosofia):
• História da Filosofia Grega (6 vols. publicados entre 1962 e 1981)
6 - Sigmund Freud (Psicanalista):
• Projeto para uma Psicologia Científica (1895)
7 - Gustav G. Fechner (Filósofo e Físico):
• Elementos de Psicofísica (1860)
8 - A. R. Luria (Neuropsicólogo):
• A Mente e a Memória (1968)
9 - Eric Kandel (Neurocientista):
• Princípios de Ciência Neural, 4ª edição.
10 - Georges Canguilhem (Filósofo):
• O Normal e o Patológico (1943)
