Artigo:Testagem Toxicológica nas Empresas: uma questão de Saúde e de Segurança

As consequências e prejuízos decorrentes de acidentes e incidentes relacionados ao uso e abuso de álcool e outras drogas representam hoje um sério problema para as empresas no nosso país. A constatação que vem sendo feita do relevante aumento de consumo de bebidas alcoólicas e de outras drogas entre os trabalhadores constitui-se hoje uma verdadeira questão de saúde e segurança no trabalho. Nas duas últimas décadas o problema do uso de álcool e drogas entre trabalhadores vem provocando a criação e implantação de Políticas de atenção e prevenção nas empresas (Lima, Alcoologia, 2008).
Nos Estados Unidos, a implantação de programas que incluem as análises toxicológicas teve início em 1983. A Organização Mundial de Saúde (OMS) coloca que 70% dos indivíduos que têm problemas de abuso de álcool e 63% daqueles que utilizam outras drogas estão empregados. Neste sentido, a exemplo das empresas de outros países, o Brasil, de forma tímida, começa desenvolver uma consciência da necessidade dessas iniciativas diante da magnitude desta problemática.
Segundo Jerônimo San Cornélio, em relatório para a Organização Internacional de Trabalho (OIT) sobre a pesquisa realizada em 38 empresas dos Estados Unidos, Europa e Ásia durante os últimos cinco anos, tendo como tema o “Consumo de drogas, álcool e medicamentos no trabalho”, os dados são inquietantes: um em cada cinco acidentes de trabalho é provocado pelo consumo de drogas! Além disso, segundo a OIT, em todo o mundo, 67% das pessoas com algum tipo de dependência química estão integradas ao mercado de trabalho.
No Brasil, de acordo com o Relatório do Ministério da Previdência Social (2009) apenas no mês de janeiro daquele ano, foram concedidas 2.506 licenças, por mais de 15 dias, para usuários de álcool, maconha, cocaína e anfetamina. Enquanto no ano de 2008 os peritos do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) concederam 31.721 afastamentos para funcionários dependentes, em 2007 foram 27.517 licenças, o que indica um aumento de 15%. Tais dados por si só já revelam o impacto econômico para as empresas brasileiras.
Os danos são diversos tanto para o empregador como para o empregado e as consequências podem ser: aumento do absenteísmo, atrasos constantes, ausências do local de trabalho durante o expediente, atritos pessoais com colegas, desperdícios de material devido à má qualidade da produção em função da perda da concentração, clareza visual e habilidades, queda de produtividade, aposentadoria precoce etc.
Para proteger a empresa e seus funcionários daqueles que, devido ao uso e abuso de drogas (licitas e ilícitas), colocam em risco o local de trabalho, o emprego de todos os colaboradores, o meio ambiente, a imagem e os lucros da empresa, faz-se crucial a implementação de uma Política de Atenção e Prevenção dos Problemas de Álcool e outras Drogas. A implantação de um programa, de assistência e de prevenção, deve ser uma tarefa executada passo-passo, e de forma transparente, envolvendo todos da empresa, desde a presidência, passando por todos os funcionários até sindicatos e associações de funcionários.
A testagem, chamada comumente de “antidoping” – na realidade tratando-se de análise toxicológica - é uma forma de prevenção. O número de testes realizados nas empresas brasileiras vem subindo. Em um ano teve um aumento de 26%, informa o Laboratório de Análise Toxicológica da Universidade de São Paulo (USP), que em 2008, 3.479 funcionários de empresas que terceirizam o serviço de análise toxicológica foram submetidos ao exame, contra 2.760 em 2007. A quantidade de empresas que já implantaram Programas de Atenção e Prevenção do uso, abuso e dependência de álcool e outras drogas no ambiente de trabalho, tendo como foco a saúde e segurança do empregado, e a imagem e rentabilidade para a empresa, cresceu de forma significativa nos últimos dois anos, em nosso serviço.
Nos Programas de análise toxicológica, as substâncias mais detectadas têm sido o álcool, cocaína e maconha.
O assunto ganhou mais destaque nos últimos meses devido à declaração da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC), que publicou no Diário Oficial da União, em 01 de junho de 2011, uma resolução que trata dos PPSP - Programas de Prevenção ao uso indevido de Substâncias Psicoativas – que, dentre outros quesitos como treinamentos específicos e ampla estratégia de informação, determina também a obrigatoriedade da realização de exames toxicológicos para algumas categorias profissionais que exerçam Atividade de Risco à Segurança Operacional, os chamados ARSO.
A tendência é que tenha um aumento mais expressivo no mercado das atividades preventivas das empresas com: reconhecimento dos empregadores, o retorno financeiro, o aumento de empresas estrangeiras no Brasil, com a adoção de políticas de saúde e segurança mais rigorosas, principalmente em funções de alto risco como motoristas, pilotos, operadores de máquinas, entre outros. Outro ponto observado na prática é a confiança e aceitação por parte dos colaboradores pelo entendimento quanto aos objetivos da Politica de Atenção e Prevenção dos Problemas Relacionados ao Álcool e outras Drogas nas empresas, que ao invés de punição visa melhorar a qualidade de trabalho através de mais: saúde, segurança, melhora da condição de trabalho e de vida. Os eventualmente identificados com problemas relacionados ao álcool e/ou drogas, os que fazem uso nocivo são encaminhados para um programa de orientação / educaçãoque são dependentes químicos, são conduzidos para ajuda especializada em tratamento Ambulatorial, e assim a participação se dá de forma muito natural.
Independente das razões que levam ao abuso e dependência de álcool e outras drogas, este é um problema que deve ser enfrentado, para que os trabalhadores e seus familiares ganhem em qualidade de vida e as empresas aufiram em produtividade, economia e segurança – um Programa de Apoio ao Empregado a Empresa (PAEE), (Lima, Alcoologia, 2009).
O uso de drogas no local de trabalho é um problema mundial de saúde pública, exigindo esforços e ações de toda ordem para diminuir o impacto na saúde, na segurança e na economia. E, portanto, deve ser tratado sem discriminação, recomenda a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
Selene Franco Barreto
Diretora da Evolução Clínica & Consultora
Psicóloga e Consultora
selene@evolucaovida.com.br
Fontes:
