Artigo: A Neurociência e as Drogas: algumas visões correntes.

Recompensas Naturais X Recompensas Artificiais
Nos E.U.A., principalmente, onde volumosa literatura científica é produzida a cada ano, a partir das inúmeras pesquisas voltadas para o estudo dos aspectos orgânicos e psicológicos da adição, vigoram as teorias que sustentam a equivalência e/ou semelhanças na ativação das mesmas vias cerebrais, tanto nos sistemas de recompensas naturais (alimento e sexo), como nos de recompensas artificiais, como é o caso das drogas.
De acordo com essa perspectiva, as drogas agem nos sistemas de recompensa do cérebro de modo similar ao das substâncias naturais pertinentes ao cérebro – neurotransmissores excitatórios e inibitórios – também trazendo prazer e/ou alívio da dor. Respostas apropriadas às recompensas foram evolutivamente importantes para a sobrevivência, a reprodução e para a integridade física. Os seres humanos acabaram descobrindo como estimular este sistema de recompensas artificialmente em mais um insight de seu percurso evolutivo. Muitas características moleculares dos sistemas neuronais de gratificação rápida, e dos sistemas influenciados pelas drogas foram conservados ao longo da escala filogenética, das espécies mais primitivas às mais evoluídas.
A Dopamina (neurotransmissor excitatório) é a molécula mais diretamente implicada à problemática da adição, no que diz respeito aos efeitos do reforço positivo (recompensa sob a forma de prazer) das drogas em geral. A capacidade das drogas intensificarem a neurotransmissão da dopamina, principalmente no Sistema Meso-Córtico-Límbico (SMCL), é bem reconhecida e documentada.
Reforçadores, impulsos, e sistemas de incentivo:
É útil considerar como o campo evoluiu conceitualmente nas últimas décadas. Embora as emoções sejam inobserváveis, muitas expressões objetivas e respostas comportamentais, fisiológicas e neurais para estímulos emocionais foram naturalmente selecionados pela evolução. Estudos sobre estas respostas objetivas em animais e humanos fornecem visibilidade valiosa da função da recompensa viabilizada pela estrutura/neuroquímica cerebral. As primeiras teorias sobre o impulso afirmavam que os estados de fome e de sede motivavam o comportamento diretamente, isto é, como estados de impulsos aversivos e que os reforçadores reduziam estes estados, fortalecendo os hábitos (E-R) precedentes ou aumentando a probabilidade da emissão da resposta operante. Recompensas são tidas agora como agindo, no mínimo, de modo tão significativo quanto os incentivos hedônicos, causando representações neurais que elicitam a motivação e a perseguição de objetivos, ao invés de meros reforçadores de hábito. No entanto, estados fisiológicos e impulsos desempenham papel importante no incentivo da motivação, mas primariamente no aumento do valor hedônico e do incentivo percebidos mediante a recompensa correspondente; por exemplo, o alimento é mais saboroso quando se tem fome, a bebida, quando se tem sede. Talvez, surpreendentemente, mesmo a recompensa e a abstinência da droga parecem motivar o comportamento do consumo de drogas primariamente via princípios de modulação do incentivo ao invés de diretamente via impulsos aversivos simples.
Concluindo:
As drogas podem impactar os sistemas de recompensas naturais do cérebro causando dependência de três maneiras: (1) as recompensas das drogas podem ativar os mesmos sistemas do mesmo modo, de forma tão intensa quanto as resultantes das recompensas naturais. As teorias sobre adição baseadas no prazer da droga ou reforço positivo supõem que elas agem tal qual a recompensa natural. (2) As recompensas trazidas pelas drogas também podem alterar a escala quantitativa de alguns componentes das recompensas, fragmentando e distorcendo os seus processos normais, gerando o comportamento compulsivo. As teorias baseadas na sensibilidade da preponderância do incentivo propõem que as drogas sensibilizam os substratos meso-cortico-límbicos da preponderância do incentivo, fracionando a recompensa natural através da intensificação do “querer” de modo desproporcional, gerando comportamento compulsivo. As teorias baseadas na potencialização das associações mantidas a longo prazo ou alterações nos processos de aprendizagem propõem hábitos E-R de consumo de drogas extremamente fortes. (3) As drogas podem induzir novos processos cerebrais, tal como os estados de abstinência aversivos, que podem desempenhar um papel de oposição ao processo mais amplo do que as recompensas naturais.
Fonte:Ann E. Kelley1 e Kent C. Berridge2
1 Departmento de Psiqiatria da Universidade de Wisconsin,
2 Departmento de Psicologia da Universidade de Michigan
A Teoria da Sensibilidade ao Incentivo – psicologia e neurobiologia da adição.
A questão da adição concerne especificamente, aos seguintes fatores: (1) o processo através do qual o consumo de drogas evolui, em certos indivíduos, para padrões compulsivos de busca e de consumo da droga, que ocorre às expensas de outras alternativas; (2) a incapacidade de parar o consumo ou o problema da recaída. Neste trabalho as abordagens biopsicológicas da adição vigentes são analisadas criticamente à luz da “teoria da sensibilidade ao incentivo” proveniente da adição, primeiramente apresentada em 1993. Novas descobertas no campo da pesquisa foram incorporadas. O reforço negativo, o positivo e a gratificação hedônica da adição não são condição necessária nem suficiente para dar conta dos padrões compulsivos do comportamento de busca e consumo de drogas. Quatro princípios básicos da visão da “sensibilidade ao incentivo” são fundamentais para a compreensão geral da problemática da adição: (1) as drogas potencialmente aditivas têm em comum a capacidade de produzirem adaptações duradouras nos sistemas neurais; (2) os sistemas cerebrais que são alterados incluem, geralmente, aqueles envolvidos no processo da motivação do incentivo e da recompensa; (3) as neuroadaptações decorrentes da adição tornam estas vias cerebrais de recompensa hipersensíveis (suscetíveis) às drogas e aos estímulos associados a elas; (4) as vias cerebrais que se tornaram suscetíveis não servem de mediadores dos efeitos de prazer ou euforia das drogas (do “gostar” de drogas), mas sim do sub-componente da recompensa que denominamos de preponderância do incentivo (do “querer” as drogas). Não se pode deixar de lado a relevância do papel das vias dopamínicas/mesolímbicas na recompensa, evidência de que a susceptibilidade neuronal a certas substâncias, de fato, ocorre em humanos e as implicações da sensibilidade ao incentivo no desenvolvimento de novas terapias para o tratamento da adição.
Fonte: Robinson TE, Berridge KC.
Departmento of Psicologia ( Programa de Biopsicologia), Universidade de Michigan
Perspectivas Comportamentais – a adição como distúrbio do comportamento
Os cientistas comportamentais, de modo geral, consideram a adição um distúrbio do comportamento que ocorre quando os agentes reforçadores relacionados à busca/consumo das drogas assumem o controle de uma parte significativa do repertório comportamental de um indivíduo (Higgins, Heil, & Lussier, 2004). Sendo assim, a adição pode ser vista como um tipo de comportamento excessivo, quando outras condutas, esperadas ou apropriadas, encontram-se disponíveis. A exposição inicial ao estímulo reforçador (ex: euforia, alimento, dinheiro) é seguida de uma progressão do comportamento. O comportamento que privilegia estes reforçadores pode, consequentemente, dominar o repertório comportamental simplesmente porque tais estímulos funcionam mais poderosamente do que outros disponíveis no ambiente de um indivíduo. Isso pode ocorrer, em parte, devido a predisposições genéticas, ou mais provavelmente, devido a determinado histórico de aprendizagem combinado com o acesso facilitado a estes reforçadores (i.e., alta taxa de reforço) e contato insuficiente com outras fontes de reforço.
Uma vantagem da abordagem comportamental ao uso/abuso de drogas é que esta, ao contrário das teorias neurocientíficas da adição, compreende outros comportamentos excessivos, não ligados ao consumo de drogas, além daqueles onde a exposição continuada às drogas não desencadeia um quadro de adição. Por exemplo, pessoas que usam drogas em excesso enquanto jovens e, não mantém esse padrão uma vez amadurecidas – fenômeno denominado maturing out (Chen & Kandel, 1995). Quando um jovem é exposto a reforçadores incompatíveis com o consumo de drogas, tais como os associados ao casamento, constituição de família e entrada no mercado de trabalho, a função de reforço relativa das drogas decresce, de um modo geral, ao ponto de não mais perpetuar o comportamento excessivo ou abusivo de consumo. As pessoas que não que não “amadureceram” podem não ter tido acesso fácil a estes outros reforços (de natureza social); podem não tê-los buscado ou ainda, podem tê-los visto como menos atraentes, inferiores às drogas, devido a determinada história de aprendizagem e/ou predisposição genética.
Um segundo exemplo de consumo continuado de drogas, que não necessariamente leva à adição, consiste no uso excessivo de heroína por soldados nas situações de combate no Vietnã. Quando retornaram da guerra, não continuaram a usá-la. (Robins, 1994). Uma terceira situação ocorre em pacientes que se automedicam com opióides para o tratamento da dor, mas não possuem a tendência de continuar o uso da droga após a melhora do quadro. O efeito de reforço da droga está, nesse caso, relacionado ao seu poder de redução da dor e, na recuperação subseqüente não há motivo para continuar a usar a droga. Há também o fato de que muitas pessoas pararam de fumar, com êxito, ao menos em parte, por causa dos riscos de saúde iminentes, que se tornaram óbvios (Centros para Controle de Doenças e Prevenção, 2004). A simples exposição às drogas, mesmo considerando os poderosos efeitos de reforço dessas substâncias, de fato, não conduz ao quadro permanente (crônico) da adição.
A abordagem comportamental mostra-se muito mais otimista quanto ao potencial terapêutico do tratamento da adição. (Higgins e cols., 2004). As teorias que sustentam a visão das alterações do sistema nervoso provocadas pelo uso continuado das drogas apresentam cenários menos esperançosos (“uma vez dependente, sempre dependente”), onde as possibilidades de tratamento são limitadas. O manejo comportamental do consumo de drogas, no entanto, é uma das estratégias de intervenção mais eficazes, principalmente no uso abusivo de cocaína, para o qual ainda não há tratamento farmacológico disponível. Os procedimentos de manejo das contingências geralmente incluem dar cupons aos pacientes que puderem fornecer amostras de urina sem vestígios de drogas regularmente. Os cupons podem ser trocados por produtos e serviços variados. Algumas terapias de manejo de contingências aumentam o valor do cupom de tempos em tempos, desde que o cliente mantenha-se livre de drogas. O acréscimo é retirado caso seja detectado o uso de cocaína ou houver recusa do cliente em fornecer as amostras. Esses procedimentos mostraram-se bem superiores, em relação à terapia convencional, na tarefa de obterem clientes livres de drogas e de mantê-los em tratamento ao longo de um trabalho de 24 semanas (Higgins e cols., 1993). No presente momento, a abordagem comportamental é especialmente capaz de gerar estratégias eficazes para a prevenção e o tratamento.
Concluindo:
Se alguém achar que a abordagem comportamental/de reforço, no que tange à problemática da adição, é mais satisfatória do que a noção de que a droga, por si só, é responsável pelo quadro da adição, isso transforma a neurociência em uma perspectiva irrelevante? De modo algum. Porém, significa que há necessidade de elaborar um tipo de neurociência relativamente diferente que enriqueça a nossa compreensão do comportamento aditivo. Por exemplo, os neurocientistas estão começando a ver a atividade no cérebro que acompanha as escolhas entre estímulos reforçadores que diferem em magnitude e em freqüência (ex.Cromwell & Schultz, 2003; Platt & Glimcher, 1999). Ainda se faz necessário submeter a ação das drogas à uma avaliação mais precisa neste tipo de trabalho.O entendimento dos correlatos neurológicos do poder de reforço das drogas poderia conduzir-nos à uma visão mais unificada da adição.
Fonte: Gail Winger (Departamento de Farmacologia), James H Woods, Chad M Galuska, e Tammy Wade-Galuska, Universidade de Michigan (2005).
Alcoologia – uma visão sistêmica do uso/abuso do álcool
Segundo o neurologista José Mauro Braz de Lima, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, uma compreensão mais sistêmica dos complexos mecanismos envolvidos na adição deve estender-se à abordagem evolucionista, através do seu expoente máximo – Charles Darwin – além de incluir a inestimável contribuição do biólogo Jacques Monod, com a sua obra O Acaso e a Necessidade. Ambos concordam com a hipótese da vulnerabilidade celular seletiva. Segundo tal hipótese, no cérebro há diversas populações neuronais dotadas de graus diferenciados de vulnerabilidade. Por exemplo, os neurônios do lobo frontal – mais recentes na escala evolutiva (neo-córtex) – adquiriram maior especificidade funcional e, por isso, tornaram-se mais sensíveis. Outros neurônios, pertencentes a estruturas mais antigas ou mais primitivas (paleo), são menos específicos (menos sofisticados). Ao longo de milhões de anos de evolução, o sistema nervoso seguiu uma ordem hierarquizada de especialização das suas estruturas (no sentido céfalo-caudal), comportando estruturas primitivas e refinadas, além de perdas e ganhos inerentes ao processo.Aparentemente paradoxal é a involução que acompanha a evolução. A evolução de determinada estrutura, uma célula, por exemplo, implica a perda de funções, ou de autonomia, para que haja um ganho de especificidade. Na verdade, trata-se de uma questão econômica, ou seja, a célula usa toda a sua energia exclusivamente para uma função. Sendo assim, torna-se, ao mesmo tempo, dependente de uma estrutura de suporte que desempenhe as demais funções (perdidas), de modo a garantir a sua sobrevivência.
O Álcool e o Cérebro
O álcool é uma substância psicoativa depressora. Esse efeito provoca a redução da atividade metabólica celular. Por serem mais vulneráveis, os neurônios do lobo frontal são os primeiros a sofrerem os efeitos das primeiras doses de álcool. As regiões mesencefálica e diencefálica – sistema límbico/circuito de Papez, hipocampo, amígdalas – ficam “desinibidas”. A supressão da inibição seletiva do lobo frontal traz a sensação de prazer inicial, de relaxamento e descontração, tão familiares aos que consomem bebidas alcoólicas (independente da freqüência). Doses mais elevadas atingem o sistema meso-límbico. O abuso e a dependência do álcool trazem o efeito citotóxico progressivo. Na condição crônica, o alcoolismo gera déficits cognitivos e/ou distúrbios comportamentais, em maior ou menor grau, além de atrofia cerebral (do tipo córtico-sub-cortical). O efeito depressor progressivo do álcool atinge o cérebro como um todo, chegando aos centros cardiorespiratórios (tronco cerebral), podendo provocar parada cardiorespiratória, seguida de coma e morte. A intoxicação aguda também merece toda a atenção, uma vez que resulta, muitas vezes, em morte.
Do ponto de vista celular, a molécula do álcool (etanol), a longo prazo, provoca rearranjos nas membranas dos neurônios compatíveis com os níveis anormais de neurotransmissores – Dopamina, Acetilcolina, GABA, etc -, que caracteriza a tolerância. O propósito do organismo consiste em manter a homeostase neurofisiológica, sob um “novo equilíbrio instável” das membranas das células nervosas. Diante desse novo estado de coisas, quando o etanol faltar, desfaz-se o equilíbrio, causando o quadro da síndrome de abstinência. Tremores, taquicardia, agitação, confusão mental e até alucinações (auditivas e visuais) são alguns sintomas da descompensação decorrente da excitabilidade neuronal elevada e da ação dos neurotransmissores sobre as membranas dos neurônios vulneráveis.
Despovoamento Neuronal e (Pseudo) Reversibilidade da Atrofia Cerebral
Não só os neurônios mais vulneráveis, mas o cérebro como um todo, sofre os efeitos neurotóxicos do álcool. As células gliais - os componentes da estrutura de suporte dos neurônios mais especializados, que fornece sustentação, nutrição e auxílio na condução dos impulsos nervosos – também são destruídas lentamente. O que se constata nos exames de tomografia computadorizada (TC) e de ressonância nuclear magnética (RNM) é o despovoamento neuronal, substrato neuroanatomopatológico da atrofia cortical e subcortical. O uso/abuso crônico do álcool conduz à morte neuronal (apoptose), destruindo milhões de células ao longo dos anos.
O álcool desidrata a célula. A perda de líquido dos neurônios, principalmente das células gliais, gera o efeito “shrunk”, ou seja, o cérebro parece “murchar”. De fato, há redução do volume cerebral (visível na TC e na RNM). A suspensão do consumo de álcool pode favorecer uma recuperação efetiva das células nervosas, mas desde que a perda de líquido intracelular tenha ocorrido em neurônios ainda viáveis. A reidratação é reversível, a regeneração da célula nervosa, não.
Desconstruindo o “Circuito da Recompensa”
É de conhecimento geral o fato de que cada droga atua por mecanismos peculiares, no entanto, um substrato comum as coloca no mesmo patamar: o Sistema Meso-Cortico-Límbico (SMCL), através do Sistema de Recompensa. A “recompensa”, facilmente obtida através do uso dessas substâncias psicoativas, pode vir sob a forma de sensações de prazer, de alívio do desprazer, de analgesia ou de anestesia. A base original da patogenia psico-social da problemática das drogas é, na verdade, a fuga do “mal-estar” inerente à condição humana. O referido “Circuito da Recompensa” faz os neurotransmissores (excitatórios e inibitórios) interagirem dentro de circuitos reverberativos (feedback) de forma dinâmica e compensatória a fim de minimizar o mal-estar, expressão inespecífica de situações ameaçadoras conscientes ou inconscientes. Na verdade, não se trata de um único circuito, mas de milhões deles atuando de modo simultâneo, difuso e aleatório (ou ao acaso), todos orientados para o propósito primário de preservar a integridade física e psíquica do organismo e, por conseguinte, da espécie (LIMA, 1981).
Fonte: LIMA, José Mauro Braz de. Alcoologia: uma visão sistêmica dos problemas relacionados ao uso e abuso do álcool. UFRJ/EEAN, 2003, Rio de Janeiro.
Psicanálise: A intoxicação (ou método químico) como fuga do mal-estar
A noção do “mal-estar”, inerente à condição humana, foi profundamente explorada por Sigmund Freud no texto “O Mal-estar na Civilização” (1929). Freud era neurologista, por formação, posteriormente, fundou um novo campo: a Psicanálise. A medicina, ou melhor, a Psiquiatria e a Neurologia da época, principalmente a corrente somática, mostraram-se limitadas para compreensão dos fenômenos de natureza psíquica. Nesse trabalho, Freud dialoga com diversas áreas do conhecimento – Biologia, Filosofia, Sociologia, Religião, Antropologia – no intuito de tratar de modo abrangente a questão do antagonismo irremediável entre as exigências do instinto e as restrições da civilização. A adição, ou intoxicação, é apenas uma solução de compromisso possível, dentre tantas outras formas apresentadas de lidar com a questão do mal-estar.
Quando o homem descobriu que poderia influenciar o organismo artificialmente, criou os seus próprios “paraísos artificiais”, como bem denominou o poeta Baudelaire. A inclinação humana pela intoxicação, ou o “gosto pelo infinito” (recorrendo ao poeta mais uma vez), reside em afastar-se da pressão da realidade, obter maior independência do mundo externo ou amortecer preocupações. Não devemos subestimar o poder (artificial) das drogas de alterar as condições que dirigem a nossa sensibilidade, ao ponto de nos tornar incapazes de receber estímulos desagradáveis. O perigo dessa via encontra-se justamente na produção imediata de prazer. Tal “benefício” foi, é e sempre será altamente apreciado, não apenas do ponto de vista individual, mas pelos povos, em geral, que concedem um lugar permanente às drogas e/ou álcool em suas culturas.
É imprescindível ressaltar que vários fatores concorrem para a produção da intoxicação crônica, dando a cada caso, uma evolução particular. Uma conjugação de fatores genéticos, psicológicos e ambientais se faz necessária para que se possa não apenas compreender os mecanismos subjacentes da adição de determinada pessoa, mas também para que se encontre os meios terapêuticos que lhe serão mais convenientes. Assim, como varia a constelação de causas geradoras da patologia para cada indivíduo, variam os graus de comprometimento cognitivo e comportamental encontrados. A idade do indivíduo também contribui, no que tange à plasticidade neuronal, para a avaliação diagnóstica e prognóstica.
A vida, tal como a encontramos, é árdua demais para todos. Mesmo indivíduos de classes sociais elevadas mostram que o bem-estar material não garante o bem-estar psíquico. Frustrações, decepções e tarefas impossíveis estão presentes na vida de todos os seres humanos. A fim de suportar esse estado de coisas não podemos passar sem medidas paliativas. Dentre elas estão os derivativos que tornam possível extrair algum ensinamento de nossa desgraça, como é o caso da Religião; satisfações substitutivas que a diminui, como é o caso da Arte, do Esporte ou da Ciência; e substâncias tóxicas, que nos tornam insensíveis a ela.
Dentre as inúmeras formas que o ser humano encontrou de evitar o sofrimento, a intoxicação mostrou ser o método químico mais eficaz, porém o mais grosseiro. A busca do prazer fácil e imediato já foi vista por muitos autores, como sinal de que o indivíduo não desenvolveu outros recursos mais apropriados ou tende a buscar “o caminho mais fácil” na vida para dar conta do seu mal-estar. As demais formas demandam esforço ou gasto de energia, recursos internos adquiridos através da experiência de ter se debruçado sobre algum trabalho físico ou mental, de ter aprendido um ofício. Além disso, não se trata apenas da quantidade de energia empregada, mas da qualidade, do “amansamento” dos instintos, exigido pela civilização. Essa impõe exigências incompatíveis com a tendência natural dos instintos em sua condição primitiva, isto é, obter satisfação intensa, desprezando a realidade. A produção de prazer através das outras fontes citadas, como o Esporte, por exemplo, possui uma qualidade especial. Ao reorientar os objetivos do instinto de modo que eludam a frustração decorrente da lida diária com as exigências da vida, obtém-se uma satisfação mais refinada. No entanto, a intensidade da satisfação obtida quando o atleta vence os próprios limites, é ainda tênue quando comparada com a que se origina da sxatisfação dos impulsos instintivos grosseiros ou primitivos; ela não convulsiona o nosso ser físico. Mesmo tênue, a aquisição de habilidades físicas e psíquicas; a oportunidade de vivenciar derrotas e vitórias e a necessidade de conhecer os limites do próprio corpo ajudam a estruturar a personalidade, além de fornecer artifícios/recursos para lidar com as vicissitudes do mundo externo. Segundo Freud, quando isso acontece, dentre outros percursos semelhantes, “o destino pouco pode fazer contra nós”.
Fonte: Freud, Sigmund: “O Mal-estar na Civilização” (1929) in Obras psicológicas Completas. Edição Standard Brasileira, vol. XXI. Ed. Imago, 1974. Rio de Janeiro.
Aline Braz de Lima
Psicanalítica;
Psicóloga Clínica;
Psicopedagoga e Professora
