Artigo: Afetos que nos Afetam

São eles, os afetos, que nos proporcionam grandes mudanças psíquicas; são eles que podem reverter um processo psicopatológico; são eles que têm o potencial curativo, como aquele de maior poder transformador do psiquismo da pessoa.
Podemos classificar os afetos como positivos ou negativos, embora isso não implique em juízo de valor – como “bom” e “mau” - visto que um mesmo afeto, em seus mais variados gradientes, pode ter função diversa. O que se observa é que os afetos positivos provocam sensações de bem-estar e os negativos, de mal-estar. Com isto, há uma tendência maior do ser humano em aproximar-se dos estímulos que geram afetos positivos e a se afastar dos negativos.
Os afetos geradores de sofrimento e de dor tendem a ser negados ou mascarados. Mas a experiência dos afetos, mesmo os negativos, é o que nos faz sentir vivos, reais e autênticos, o que nos permite ser espontâneos e o que dá significado às nossas vidas. Esta experiência transforma o corpo, o self e os relacionamentos. As emoções intensas dificilmente deixam as coisas como estavam (James, 1902).
Ao encobrir afetos, corremos o risco de levantarmos defesas que podem nos prejudicar, nos adoecer, e - por que não - até nos matar. Vivemos numa cultura que estimula indiretamente, através de drogas lícitas e ilícitas, o não-sentir.
Crescemos ouvindo que para não sentir dor, mal-estar ou desconforto, podemos tomar um remedinho; para aliviar a tensão do dia, é só tomar uma dose; é só fumar um cigarrinho para reduzir a ansiedade...e assim por diante. O não-sentir tornou-se o grande motivador.
Percebemos que as pessoas cada vez mais, nas relações familiares, sociais, profissionais, colocam-se distantes, com medo talvez, de sofrer ou decepcionar-se, constróem defesas para que o outro não possa vê-los.
Neste mundo competitivo o outro torna-se uma verdadeira ameaça. Mas todo esse esforço parece ser em vão: os sentimentos não morrem. Podemos enterná-los, mas mesmo assim continuarão conosco. Se não forem admitidos, não serão compreendidos e, consequentemente, poderão distorcer nossa visão de mundo.
Considerando a formação de vínculos afetivos uma necessidade básica do homem (Bowlby, 1982), podemos inferir que já nos primeiros anos da infância a qualidade do vínculo que a criança estabelece com os seus cuidadores (sejam os pais biológicos ou não), é que irá nortear sua forma de lidar com o outro em sua vida adulta. Por exemplo, uma criança que não teve um vínculo seguro, um ambiente de confiança, por ocasião de suas primeiras trocas afetivas, tende quando adulto a não confiar no outro.
Por outro lado, uma base segura favorece, já nas primeiras experiências da criança, o comportamento exploratório, gerador de afetos propiciadores de mudanças psíquicas.
Em resumo, vínculo é resultado da ligação entre “o membro mais vulnerável (criança) e um outro mais forte e/ou mais sábio” (Bowlby, 1977), possibilitando a manutenção e regulação do sentimento de segurança. Daí ser fundamental que o cuidador estimule a criança a experimentar/explorar o meio com segurança, podendo assim acalmar seus medos e facilitar seu crescimento.
Dar relevância ao aspecto afetivo, admitindo/vivenciando o amplo espectro dos muitos afetos que nos constitui é a única possibilidade de promover mudanças. No entanto, somente poderemos nos transformar se conseguirmos ver e perceber em nós mesmos as raízes do afeto, visto que negá-lo é permanecer estritamente vinculado a ele, fadado a repetir os mesmos padrões improdutivos de funcionamento.
Ana Clara F.Soares
anaclara@evolucaovida.com.br
Psicóloga Clínica
Pós-graduanda em Psicoterapia Breve
Especialista em Dependência Química
Especialista em Libras
Coordenadora da Equipe de Psicologia da Evolução
Hosana Maria Siqueira
hosana@evolucaovida.com.br
Psicóloga Clínica
Pós-graduanda em Psicoterapia Breve
Especialista em Dependência Química
Técnica de Enfermagem
