Artigo: Automedicação: porque não?

Hosana Siqueira
Clínica Evolução
A cena é comum: o cliente entra na farmácia, pega a cesta de compras e, como se estivesse num mercado, escolhe diversas cartelas de remédios. Antiácido, antibiótico, analgésico, antigripal, antiinflamatório... e por aí vai...
Esta é uma prática muito comum no Brasil, onde - de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas - cerca de 80 milhões de pessoas são adeptas da automedicação. Um levantamento feito pelo Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP) constatou que 68% de 2.789 estabelecimentos farmacêuticos venderam antibióticos sem receita médica, de junho a setembro de 2008. Por definição, automedicação é a prática de ingerir substâncias medicamentosas sem o acompanhamento de um profissional. Ela ocorre quando o indivíduo tem algum sintoma e decide tratar-se sem consultar um médico ou quando é medicado por outra pessoa não habilitada para isso, como amigos e familiares.
Tomar remédios por conta própria pode trazer diversos efeitos colaterais. O mais grave, no entanto, são aqueles que só aparecem mais tarde. Para combater esse mau hábito, é importante um trabalho de conscientização.
Dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox) da do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde – Icict / Fiocruz apontam que há, por ano, 34 mil casos de intoxicação por uso indevido de remédios, com média de 91 mortes, facilmente explicados por nos últimos cinco anos os “medicamentos” ocuparem o primeiro lugar entre as causas de intoxicações
Fatores relacionados ao nível educacional da sociedade, o livre acesso às informações pela internet acerca de medicamentos, saúde e doenças, a utilização de receitas de consultas anteriores, a troca de experiências com amigos, vizinhos… estimulam bastante a automedicação. Juntando-se a isso, a publicidade dos medicamentos considerados de venda livre – sem tarja, como os analgésicos, antiácidos etc – incrementam o mau hábito de automedicar-se.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a automedicação pode acarretar: diagnóstico errado da doença; escolha da terapia inadequada; retardo do reconhecimento da doença com possibilidade de agravamento do quadro; ingestão errada de medicamentos; efeitos indesejáveis (que vão desde reações alérgicas, diarréia, tonturas e enjôos, até anular eficácia de medicamentos ou potencializar efeitos colaterais). Outro risco é o desenvolvimento de DEPENDÊNCIA como nos casos de uso inadequado de psicotrópicos (anorexígenos, ansiolíticos dentre outros) que, tomados de forma inadequada fazem o binômio custo-benefício apresentar-se desfavorável ao usuário. Um exemplo dramático deste grupo de medicamentos são as anfetaminas - remédios utilizados para controle da fome. Se ingeridos dentro da indicação, controle e orientação médica é eficaz. Mas o uso inadequado pode trazer malefícios como: hipertensão, ansiedade, taquicardia, entre outros.
Mesmo o tão necessário filtro solar deve ter aval médico, pois - segundo especialistas da Sociedade Brasileira de Dermatologia - a eficácia varia de pessoa para pessoa.
Situações de risco da automedicação:
De acordo com a Anvisa, “a resistência microbiana natural ou adquirida aos antibióticos vem aumentando em todo o mundo, e, em particular, no ambiente hospitalar. O uso indiscriminado de antibióticos pode agravar o problema, facilitando o surgimento de bactérias e outros microrganismos cada vez mais resistentes, reduzindo a eficácia dos medicamentos”.
Considerando os problemas causados pelo uso intensivo e extensivo desse medicamento, a Anvisa decidiu empregar maior controle na venda de antibióticos através da solicitação da receita e identificação do comprador nas farmácia.
Medicamentos e crianças
A automedicação em si já é uma prática perigosa. Mas, segundo especialistas, em crianças o risco é maior ainda. Há situações em que as intoxicações podem acontecer quando a utilização de remédios se faz por conta própria - como quando os pais indicam e administram medicamentos nos filhos – mas há casos em que a criança ingere o medicamento inadvertidamente, pensando ser bala, por exemplo. Por isso, comprimidos coloridos e líquidos atraentes, que normalmente chamam a atenção das crianças, devem receber cuidados e atenção dos adultos, sendo indicado o hábito de guardar todo e qualquer medicamento fora do alcance infantil. Tal cuidado é imprescindível. Afinal, segundo dados do Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas (Sinitox), no ano de 2008 foram intoxicadas 9.956 crianças de 0 a 9 anos pelo uso incorreto de medicamentos - o que representa aproximadamente 38% dos casos de intoxicações farmacológicas.
Dúvidas O que fazer em caso de reação alérgica a algum medicamento?
Procurar imediatamente um posto de saúde. Não tome nenhum remédio em casa por conta própria, mesmo que a intenção seja de “cortar” o efeito do anterior. Como é possível fazer o diagnóstico? Observe se surgiram quaisquer sinais de manchas no corpo, placas, coceiras e vermelhidões, bolhas isoladas ou juntas. O ideal é fazer um diagnóstico médico precoce para verificar as possíveis reações alérgicas. O que fazer em caso confirmado de alergia? Suspender imediatamente o uso do medicamento e seguir a orientação médica. Se for confirmada a alergia a algum remédio, há tratamento? Sim. Geralmente é com uso de corticóides e outros medicamentos que diminuem a reação do organismo.
Medicamentos fitoterápicos (naturais) também causam riscos?
Todos os medicamentos, sem exceção, têm efeitos colaterais e podem provocar riscos à saúde. Misturas perigosas Anticoagulante (warfarina) + remédio para controle do colesterol (sinvastatina) A warfarina aumenta chances de efeitos colaterais da sinvastina, como dor muscular, e a combinação pode piorar problemas como úlceras e outros tipos de sangramento. Antibióticos + antiácidos Antiácido diminui até em 70% a absorção do antibiótico. Antibióticos + anticoncepcionais O antibiótico reduz concentrações hormonais, diminuindo eficácia da pílula. Ansiolíticos / sedativos + álcool Mistura aumenta o efeito depressor do sistema nervoso, podendo causar depressão respiratória, hipotermia e falência cardiovascular. Analgésicos + ansiolíticos O ansiolítico acentua o efeito da maioria dos analgésicos, podendo causar alterações no ritmo cardíaco. Niacina (vitamina B3) + atorvastatina ou sinvastatina (ambos para controle do colesterol)
A mistura aumenta a chance de dores musculares e destruição de células do tecido muscular. Lisinopril (para controle de hipertensão) + suplementos de potássio O uso combinado aumenta o risco de níveis elevados de potássio no sangue, podendo provocar ataques cardíacos e até a morte.
Corticoides + antiinflamatórios Podem causar dores de estômago e maior risco de úlceras. Antidepressivos + inibidores de apetite Antidepressivos potencializam efeitos colaterais de remédios para emagrecer, podendo causar irritabilidade e psicoses.
Como estas e tantas outras possibilidades de risco à saúde são de conhecimento clínico, medicamentos devem ser utilizados apenas quando houver uma indicação clara e precisa do médico.
Para saber mais:
Anvisa Agência Nacional de Vigilância Sanitária
www.anvisa.gov.br
Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas www.abiquifi.org.br
CRF-SP Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo
www.crfsp.org.br
OMS Organização Mundial de Saúde
www.who.int
MS Ministério da Saúde
www.saude.gov.br
Sinitox Sistema Nacional de Informações Tóxico-Farmacológicas Icict / Fiocruz
www.fiocruz.br/icict
SBD Sociedade Brasileira de Dermatologia
www.sbd.org.br
